Ilhabela Verde Amarelou

Ilhabela verde amarelou

coluna de opinião da série viagem pitoresca & histórica ao brasil pátria amada brasil

Márcio Pannunzio, texto & fotos

AVISO: esse texto contém ironia, é satírico e por isso recomenda o bom senso não interpretá-lo inteiramente ao pé da letra.

Num incerto dia Ilhabela amanheceu verde amarelada. Por toda extensão da avenida principesca com suas margens horrorizadas por galpões industriais caça aluguel, prédios caixotes stalinistas e demais quizumbas comerciais de lastimosa lavra, banners verde amarelos enforcavam os postes. Lá na entrada da vila, agigantados, atravessaram pelo alto o pedacinho tão modesto do calçamento de paralelepípedos que ainda sobrevive feito lembrança granítica dum plácido passado imemorial.

Essas lonas coloridas berrando babavam ufanismo futebolístico rebentando os ouvidos dos viventes que os enxergaram feito soco n’olho criando alucinação visual: a ilha joga junto FORÇA BRASIL.

Pois então a ilha virou gente; mas fraca não só das ideias mas também das pernas, nadinha nada nada colaborou pro sucesso do Brasil pátria amada chuteirista.

O sonho ilhabelense de vencer a copa virou um montaréu de banners no lixo já que, lamentavelmente, não poderão ser devolvidos pra outro lugar menos insalubre feito os R$ 7.723.735,78 destinados à cultura insular  não utilizados em 2021.

Expoente maior da cultura local, o artista plástico Carlos Pacheco que ama demais esse lugar ilhado com cujos dejetos constrói sua obra singular, abrindo os braços em direção a sua volta, embevecido diz: – olha só esse quintal!

Seu gesto largo abraça a língua de mar do canal e se perde no contorno das montanhas do parque estadual. Lá bem longe longe, além do horizonte que essa serra esconde, a terra beija o alto mar.

Numa área desse lugar foi criado no apagar das luzes da gestão Gracinha, a reserva extrativista Baía de Castelhanos, comemorado pela comunidade caiçara e pela pena atilada do jornalista João Lara Mesquita do Mar Sem Fim como freio à especulação imobiliária que aquém de transformar o que toca em ouro, transforma é em merda de muito maior fedor do que essa que empesteia o ar insular por falta de saneamento básico.

O decreto de criação da reserva durou menos de dois anos.

Lei criada pelo poder executivo municipal, a de número 1.546, determinando a revogação da lei 8.351, criadora da RESEX, foi endereçada à Câmara Municipal de Ilhabela no dia 16 de agosto de 2022, para ser aprovada a toque de caixa e sancionada no dia seguinte.

Se a Ilhabela quando muito é um ente mambembe mas nem um pouco é qualquer gente, até por ser desprovida de mente, nada fez contra essa ação demente, feita às pressas sem mínima clareza, houve quem fez e dessa vez, quem fez foi gente.
A revolta que tomou conta da caiçarada subiu rápido atingindo ponto de fervura no dia 30 de agosto. Caiçaras dos confins da ilha se ajuntaram na frente do Fórum  para saírem em caminhada até a sede da prefeitura. A multidão então se postou na sua entrada para, aos gritos coléricos, cobrar postura do prefeito que propôs a lei e dos vereadores que a aprovaram instantaneamente.

Se eles ouviram e se inquietaram, ninguém sabe, ninguém viu. Mas o Ministério Público que não é surdo nem cego e muito menos mudo, publicou no dia 10 de novembro sentença que suspendeu  os efeitos da lei que pretendeu desmantelar a festejada RESEX.

O quintal, ou melhor, essa sua pequena fração doutro lado da ilha, respira agora aliviada, mas não respiram assim nem os postes nem os coqueiros da avenida infanta. Livres daqueles banners baba-ovo laxantes de intestino preso, os estrangulam desta vez cordames elétricos dum mundaréu de luzes amarelo frouxo. À noite acesas, a visão é a de uma sucessão interminável e indigesta de piras incendiando o escuro e torrando, num fogaréu dos infernos, o verão derretedor de asfalto que ora deita e muito mesmo rebola e rola nessas obras de pavimentar de novo novamente mais uma vez dessa sim afinal bem-feita em ruas de bom leito na Água Branca. Essa coisa de alumiar pau e poste faz parte dum projeto maior, o do “Natal Luz Ilhabela”.

Nas palavras meio chorosas, meio um tanto ardidas da vereadora Diana Almeida, ele vai custar oitenta mil reais por dia pra população de Ilhabela, dela pois fazendo uma legião de papais-noéis perdulários. Fazendo uso da tribuna da câmara no dia 6 de dezembro, Almeida finalizou seu discurso mais incendiário que esse monturo de lampadazinha, não sem antes disparar uma pesada fuzilaria contra o prefeito mais doída que essa aí enforcadora de poste e coqueiro, se dizendo “indignada com essa vergonha que tá o Natal Luz Ilhabela” .

a fala bombástica da vereadora Diana Almeida começa depois dos 44 minutos e 54 segundos do vídeo gravado da sessão da Câmara Municipal de Ilhabela do dia 6 de dezembro

Na Ilhabela, a mais rica das cidades do Brasil, não falta dinheiro pra banners verde amarelo oba oba pra frente brasil pátria amada varonil que são mortos num aterro sanitário enquanto os antigos outros com face humana criados pelos çábios da publicidade institucional sobrevivem nos contando todo dentes sorridentes que Ilhabela é gente de bem, descolada e desfrutável ano todo tempo inteiro.

Regiamente remunerada pelos royalties do petróleo, a despeito da inveja das demais cidades brasileiras que precisam pular miúdo, parece que essa receita quase bilionária é pouca para os gestores da ocasião. Então surge a proposta de aumentá-la cobrando trinta reais pelo primeiro dia e mais cinco por cada um dos outros que o turista desavisado passear pelo arquipélago. Isso tudo em nome de taxa de preservação ambiental pra ser usada em prol da muito nobre promoção da sustentabilidade, da segurança, da legalização imobiliária e da contenção das invasões. Seriam essas últimas as bárbaras, as do turismo de um dia?

O que vende essa proposta que de pronto estampa projeto de lei detalhado, só faltando numerar e colher assinatura do prefeito, é a criação duma plataforma digital bem azeitada às custas do hipertrofiado erário municipal. E seu prospecto na internet, como todo prospecto publicitário que se preze, está recheado de fotinhos bonitinhas dessas que fazem brilhar olho publicitário e babar boca de influencer, tem também uma frase citação pra exalar embolorada sabedoria de almanaque.

“A maneira de começar é parar de falar e começar a fazer.”

Walt Disney. Ele mesmo, o criador da Disneylândia.

Faz pouco tempo, era Ilhabela capital da vela sonhando virar o jeca dubaiano novo rico balneário Camboriú, que ora frequenta as manchetes dos jornais por seus banhistas brega jacus deslumbrados estarem tomando banho de mar de bosta. Hoje, pretendem, pelo visto, é transformar Ilhabela numa disneylândia tropical insular.

De saída esse parque temático ilhabelense teria várias atrações, a começar pelo da caça ao lixo, sempre tão farto e presente na praias, nas cachoeiras, nas ruas, nas calçadas, nas praças, no meio do jardim dos horrores de estátuas alugadas com dinheiro público. O pula pula buraco, cratera, depressão, costela de vaca aqueceria a turistada disneyilhabelista para a próxima palhaçada. A da corrida de obstáculo com participantes carregando geladeira de isopor, quer dizer, cooler, tentando desesperadamente atravessar a muralha de comércios praianos donos do pedaço AQUI MANDO EU VOCÊ PAGA OU CAIA FORA RAPIDINHO interditando acesso à praia botequeira. Prova essa bastante difícil a ponto de nem o Kenner Neiva, com toda a sua espantosa vitalidade, ter conseguido completar.

Pena que na ilha não aconteceu manifestação turística carnavalesca como em São Sebastião em frente à Delegacia da Capitania dos Portos. Por lá quem circula, a pé, de bicicleta ou moto ou carro ou ônibus, atravessa um corredor polonês de embandeirados tremulando histéricos o lábaro estrelado vociferando, desafinados, o hino pátrio. Se o imprudente fizer com a mão o L do Lula lá, leva tabefe; se fizer arminha, é ovacionado, a mulherada o beija e a homarada o abraça.

Por aqui não vingou. Podia ter um ajuntamento desses em frente ao posto da PM na entrada da ilha ou na nova escola cívico militar que, sem dúvida, haverá de elevar a nota baixa altura rodapé da educação municipal insular na avaliação do i-educ, o índice municipal de educação presente nas planilhas dos relatórios de Tribunal de Contas. E lembrando que Ilhabela é conhecida como local de avistamento de disco voador, seria aqui bem facilitada a comunicação com os ETs que enfrentou dificuldade noutros lugares onde manifestantes, inconformados com a derrota do seu messias mito, clamaram em vão auxílio ao espaço sideral porque suplicar por intervenção militar ditatorial federal o escambau não tava adiantando porcaria nenhuma.

Entretanto, se por um lado na ilha não teve manifestação antidemocrática golpista, por outro aqui vazou na internet a relação dos petralhas comunistas comedores de criancinha esquerdistas maconheiros artistas fotógrafos vagabundos moradores eleitores do presidente ex-presidiário e não do ex-presidente presidiário muito em breve justiça seja enfim feita. Vazou porque assim os defensores locais da ditadura, saudosos da censura e da tortura, poderão desprestigiar seus comércios subversivos na meritória intenção de levá-los à falência.

Esse acontecimento foi informal, mas que beleza se a indústria do turismo insular e os poderes constituídos ilhabelenses abraçarem essa lista e a melhorarem: Ilhabela com selo de qualidade verde amarelo chancelado pela extrema direita populista reacionária bolsonarista que aterrorizou Brasília no dia da diplomação do Lula. Aí quem sabe se evita que aqueles desafortunados banners acabem assassinados. A galera da publicidade oficial, sempre tão econômica no seu falar e tão operosa no seu fazer, há de encontrar jeito maneiro de aproveitá-los.

Ilhabelenses antigos gostavam de acreditar que Ilhabela não é Brasil; Brasil tá do lado de lá.
No lado de lá, no continente, venceu apertada a escolha da erradicação da barbárie, da reconstrução da civilidade, da preservação e do fortalecimento da democracia. O trabalho será enorme e extenuante porque, como pontuou Celso Rocha Barros, o vencido foi o pior governo do mundo, cujo legado maldito é abominável e ficará inscrito, para sempre, vergonhosamente, na história brasileira. Afortunadamente, sopram desde já bons ventos e gente realmente gente e de valor, arregaça as mangas e muito fala para fazer ainda muito mais.
No lado de cá, na Ilhabela onde venceu Bolsonaro, fica a amarga sensação de que está tudo como dantes no quartel d’Abrantes.

2 Replies to “Ilhabela Verde Amarelou”

  1. Crônica que reflete muito bem o processo de degradação urbana estabelecido na cidade, em cujo hino se afirma ser “Valioso adorno és do diadema que envolve o nome do Brasil”

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