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Vamos a la playa

Há os negacionistas. E há os que vivem em negação. Negacionistas simplesmente não acreditam que vivemos uma pandemia; que pessoas morrendo feito moscas realmente falecem em hospitais indigentes onde tudo falta, menos agonia e desespero. Constroem, diligentes, para negar esse fato incontornável, teoria da conspiração em cima de teoria da conspiração num crescendo de completo delírio para justificar o inacreditável.

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Viver em negação é como se essa realidade dolorosa não nos diga respeito, existindo somente num mundo paralelo. No mundinho restrito e medíocre de cada um que só enxerga o seu próprio umbigo.

Como pode essa gente, ao encampar essas crenças, se alienar completamente da dor dos seus semelhantes? Que perderam pai, mãe, filho, filha, neto, neta, irmão, irmã, prima, primo, sobrinho, sobrinha, tio, tia, cunhado, cunhada, genro, nora, esposa, marido, namorado, namorada, amante, professor, professora, aluno, aluna, empregado, empregada, patrão, patroa, amigo, amiga… Perderam sem nem poder velar. Perderam mal podendo se enlutar. Perderam depois duma evolução torturante e demorada de enfermidades cada vez mais sérias. Perderam dum instante para outro, tão rápido. Com mortos em número de tantos zeros, sempre há dum deles ter sido parente, amigo ou conhecido com face e vida de fácil lembrança.

Não podem, negacionistas e os que vivem em negação ser todos enquadrados como sociopatas, um transtorno de comportamento anti-social que de acordo com Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5ª edição, poderia ser reconhecido pelos seguintes comportamentos:

  • Desprezo pelas leis, praticando atos que inclusive são passíveis de detenção.
  • Ser enganador, mentiroso e ludibriador, visando obtenção de vantagens, benefícios e ganhos pessoais.
  • Agir impulsivamente, sem planejamento dos seus atos.
  • Ser imprudente e não se preocupar com a sua segurança ou com a segurança de outras pessoas expondo-as a perigos evitáveis.
  • Ficar facilmente irritado e agressivo principalmente quando interpelado e se envolver em discussões com xingamentos ou brigas físicas constantemente.
  • Agir de forma irresponsável, como por exemplo, desrespeitar suas obrigações profissionais, abandonar o seu emprego sem garantia ou planos de outro, não pagar suas contas.
  • Não sentir remorso, ser indiferente aos sentimentos ruins ou maus tratos que causar aos outros.
  • Forte desprezo pelos direitos dos demais.

Não podem ser todos assim rotulados porque resultaria num volume gigantesco de sociopatas quebrando a estatística considerada aceitável desse transtorno na sociedade.

São então o quê? São desumanos? São sem-noção? São ignorantes?

Com tamanha explosão de cenas de terror nos jornais, nas revistas, nos noticiários da TV, como se consegue ficar sem saber dessa peste terrível que nocauteia o planeta? E muito mais que nocautear, enlameia o Brasil o transformando em um asqueroso zumbi de filme de pavor aterrorizando o resto do mundo por criar novas cepas do coronavírus mais transmissíveis e mortais.

Não pode pois haver espaço para a ignorância.

A contunde Carta à Humanidade redigida por corajosos brasileiros célebres principia com uma aterradora citação de Hanna Arendt:“Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança.”

Por falta de medo, pela certeza da impunidade, hoje se investe feroz contra a democracia, a cultura, a ciência, a arte, a justiça, a educação, o meio ambiente, a saúde, o jornalismo, a história, a liberdade de opinião pelo país de norte a sul, de leste a oeste num infatigável trabalho de demolição que faz surgir dos destroços uma horda de endoidecidos escondendo sua repulsiva aparência com andrajos da bandeira nacional desejando mais e mais e mais além do imaginável perseverar em destruir a nação em nome duma cruzada moralizadora. Batem-se feito cruzados a serviço duma igreja sanguinária e imoral, banhando com o sangue dos inocentes a terra que cruelmente arrasam a sua passagem.

Por falta de esperança se imobilizam os que poderiam deter essa tragédia, cujas cores berrantes foram bastante previstas antes do seu arremate medonho por muita mente lúcida, por muita cantoria, matéria jornalística, filme, poesia, performance, cartum, desenho, pintura, gravura, discurso, grito, berro, choro, alerta; tudo isso se desmilinguindo no vazio sideral da indiferença e por causa da profunda decepção que se seguiu, ficou enfraquecida a esperança.

 

vamos a la playa

Na indiferença vivem as almas negacionistas e as almas em perpétua negação que se banham de sol e mar nesses dias de fechamento do comércio fazendo deles alegres feriados sob a dançante trilha sonora do vamos a la playa.

Contra elas pouco puderam os tratores que São Sebastião fez arar as suas praias tomadas dessa insensível praga humana por um lugar ao sol e ao mar enquanto tantos morreram e vão morrer em excruciante aflição na inútil espera duma vaga hospitalar que não veio e não virá.

Essa mesma praga humana se alastrou pelas praias de Ilhabela e ela não poderia ser tomada nem por ignorante, nem por analfabeta. Saberia, perfeitamente, ler que o decreto municipal 8.499 escreveu:“Fica proibida a reunião, concentração ou permanência de pessoas nos espaços públicos, em especial, nas praias e parques.”

Cidades do Litoral Sul, vivendo o ápice da crise sanitária, estão partindo para fechar tudo; já não há mais lugar para esse questionamento disparatado entre economia e saúde como vociferou a Carta Aberta à Sociedade Referente a Medidas de Combate à PandemiaO País Exige Respeito; a Vida Necessita da Ciência e do Bom Governo. A saúde precisa prevalecer e se os pobres, os vulneráveis da pandemia não podem, é evidente, morrer de fome, é dever do governante responsável os socorrer. Seja com cesta básica, seja com auxilio emergencial ou até mesmo com o alimentation card tabajara como fez a prefeitura de Ilhabela na gestão anterior.

Empresários que encabeçam as barulhentas carreatas negacionistas pelas cidades levando desassossego até aos hospitais lotados de moribundos, deveriam parar de pressionar o governo para não fechar mesmo que temporariamente os seus negócios, passando a pressioná-lo, isso sim, para que tome medidas efetivas e comprovadas de combate à pandemia, ainda que impopulares e os ajude e ajude os seus funcionários com risco de serem demitidos. Não existe vergonha alguma em cobrar essa ajuda a quem dela precisa com urgência; é uma obrigação do estado brasileiro que está claramente inscrita no artigo quinto da constituição:“todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida.

Epidemiologistas renomados previram que chegaríamos aos trezentos mil mortos e agora que chegamos, dobram o sinistro vaticínio: podemos chegar aos quinhentos mil.

Logo o Litoral Norte, refratário no passado recente às medidas de contenção do governo Dória, visto até como coronel sem nunca o ter sido, poderá seguir caminho igual ao do Litoral Sul que agora cerca suas praias para evitar na marra que os banhistas desalmados nelas se aboletem feito lagartos de sangue frio ao sol.

Com a antecipação dos feriados na capital já a partir dos dia 26 de março e até o dia 4 de abril, é certo que as praias daqui receberão nessa época o reforço considerável dos negacionistas e dos que vivem em negação na metrópole para viver em idílio egoísta à beira mar se empanturrando de fritura indigesta e cerveja, cachaça e batidinhas doces enquanto rebolam ao som do vamos a la playa.

Não seria cômico, seria verdadeiramente insensato, vergonhoso por sacramentar o egoísmo descarado como a escolha política de fomento da economia local, se diante da maior ocupação hoteleira e ocupação também dos leitos ofertados pelos escravos do airbnb, os defensores do turismo acima de tudo e de todos e acima de deus também, festejassem eufóricos nas praias proibidas o dinheiro que ganharem.

Se essas pessoas que virão viver no Litoral Norte como se em férias estivessem adoecerem, enfartarem, se no trânsito de bêbados se acidentarem e mesmo se contraírem o coronavírus precisando de imediato socorro por essas plagas, em todos esses cenários vão enfim se ver frente a frente com a indesejada hora, a pior e a mais pavorosa das horas, qual seja, a de reavaliarem na própria carne a leviandade das suas crenças, tanto as negacionistas, quanto as de viver em negação.

 

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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