foto em foco: Ilhabela Unida pelo Trabalhador

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O cobertor da prefeitura de Ilhabela para proteger os vulneráveis da cidade é curto.
O programa de renda emergencial através de cartão alimentação vai beneficiar sete mil moradores.

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Pois apenas até a tarde de quinta-feira, dia 9 de abril, já haviam se cadastrado seis mil e quinhentos interessados. A previsão é que seja superada a marca dos quinze mil.

Então esse programa “Ilhabela Unida pelo Trabalhador”, infelizmente, logo de saída mostra que assim como os papagaiados “Ilhabela vida natural”, “Ilhabela te recebe de braços abertos”, “Ilhabela, uma ilha mil maravilhas”, fantasia uma história cuja realidade é outra bastante diferente.

Ao deixar oito mil munícipes de antemão fora da proteção desse cobertor, revela uma união que só existe na cabeça dos marqueteiros ainda a serviço da prefeitura milionária.

Ainda. Porque diante da brutal queda do valor do petróleo e da sua produção, doloroso será o tombo do valor dos royalties. Uma vez que o movimento pela isonomia na repartição desse recurso entre os municípios vai ganhar fôlego mais que redobrado, é de se crer que em breve a fatia do bolo da ilha vai diminuir e muito.

E como o IPTU, o imposto sobre serviços e demais receitas municipais vai despencar por causa da falência da economia insular, os cofres da prefeitura de fartos vão se tornar minguados.

Finada pois a sedução do dinheiro fácil, os marqueteiros de ocasião vão enfiar a viola no saco e cantar noutra freguesia. Se é que vai haver alguma que lhes pague o quanto estavam acostumados.

Mas enfim, retomando.

Seis mil e quinhentas inscrições em tão pouco tempo é um recorde. Enorme, se levarmos em conta a dificuldade de preencher o cadastro na internet.

Boa parte da população vulnerável de Ilhabela é analfabeta funcional. Alguns podem exibir celulares descolados mas o fazem mais pelo gostinho de ostentar algum status de consumo supérfluo do que pelo desafio de manusearem seus aplicativos complicados.

Muitos não têm conta nem no facebook, nem no instagram. Será que não tê-las se tornará um impedimento para a concessão do benefício?

Todavia, não é um bicho de sete cabeças preencher o cadastro. Principalmente se quem o fizer tiver familiaridade em comprar na internet. O que, vale repisar, parcela expressiva dessa gente vulnerável não faz. Quem ganha vendendo o almoço para pagar o jantar, não se dá ao luxo de comprar na rede.

E aqui a palavra “rede” vem à mente como imagem de preguiça, descanso. Ficar à toa balançando na rede. Quem compra na internet, – na rede de computadores -, em certa medida faz uma ação que só quem pode se dar ao prazer de balançar preguiçosamente em rede se dá.

Porque tem informação e renda e não tem de ficar gramando cortando mato ou vendendo fruta que cata pelo mato num carrinho de pedreiro empurrado pela cidade como faz um ilhabelense que se tornou folclórico.

O cobertor de proteção aos vulneráveis de Ilhabela, além de curto tem buracos.

É uma atitude autoritária exigir que o seu usuário ou usuária gaste integralmente os R$ 1.045,00 no espaço de um mês, lhe interditando, – caso isso seja possível -, gastar menos guardando o restante para um futuro de penúria.

Os marqueteiros a soldo da prefeitura não se privam de dar suas baforados no cubano ( o charuto ), nem de bebericarem na sua happy hour ( adoram palavras em inglês ) seu scoth label on the rocks no conforto do seu lar.

Mas num atitude desrespeitosa exigem que os pobrezinhos da ilha não gastem seus Personal Cards ( inglês, novamente ) comprando bebida alcoólica ou cigarro numa escandalosa afronta ao livre arbítrio deles.

É notícia hoje que a Caixa Econômica Federal começará a pagar os R$ 600,00 de auxílio emergencial aos brasileiros vulneráveis nesta terça-feira, dia 14. É uma merreca. Mas se tratando de família encabeçada por mulher, esse valor dobra. Mil e duzentos reais debitados em conta corrente sem burocracia. Mil e duzentos para gastar conforme se quiser. Comprando o que precisar no lugar que escolher.

O processo de cadastramento é descomplicado e rápido. Não precisa informar conta de rede social; não precisa anexar carta de patrão ocasional; não precisa ficar fotografando e carregando documento no aplicativo. E o dinheiro cai integral em conta corrente, sem qualquer desconto ou pagamento de tarifa.

Para ser gasto, vamos dizer uma vez mais, como o beneficiário ou beneficiária achar melhor. Respeitando a sua liberdade e as suas necessidades. O link do jornal O Globo com o passo a passo do processo de solicitação desse auxílio do governo federal é este aqui.

Numa ação solidária, cadastrei no site www.trabalhadordeilhabela.com.br quem não o conseguiria por não ter nem o conhecimento de como fazê-lo, nem as condições materiais para o concluir; a saber, conexão de internet com velocidade estável e alta e equipamento de informática compatível.

A resposta ao cadastramento passados três dias, não veio.

Bem diferente daquela que analisa a autorização de atravessar de volta à ilha. Sua negação parece ser instantânea de tão rápida que chega e isso quem sabe explique porque tantos ilhabelenses amargam ficar passando necessidade no continente quando têm casa, emprego e família na ilha.

Ficam aqui públicas minhas desculpas por estar ilustrando uma coluna que se intitula foto em foco com pinturas e não fotos. Não tenho como fazer foto. Se atravesso para fotografar o povo desesperado no barraco da Dersa em São Sebastião, vou me transformar em mais um deles porque não consegui autorização para a travessia de volta.

A pauta que carregaria na Foto Arena por causa disso malogrou. Não vai ter jornal, portal de notícia, semanário estampando foto desses aflitos e esse fato confirma o verso da música do Chico Buarque de que “a dor da gente não sai no jornal”.

Se a ilha fosse um país como sonhadores saudosistas gostariam de desejar, que país de alma ruim ele seria…

Deixaria seus compatriotas passando fome e vergonha noutros países em conflito ou ruína, sem se dar ao trabalho de repatriá-los para a segurança pátria.

Os pobres coitados de Ilhabela impedidos de atravessar porque o “sistema” não deixou, ficaram como indigentes em São Sebastião, dependendo da caridade de quem não sabe o que significa o slogan “Ilhabela Unida pelo Trabalhador”.

Outra máxima que os marqueteiros ainda de plantão pronunciam de boca cheia é que a prefeitura não vai gastar nada com a Personal Net que foi contrada para implementar e administrar a tecnologia desse cartão alimentação.

Isso é verdade sim.

À primeira vista, quem vai remunerar os serviços da empresa que não trabalha de graça, é evidente, vai ser o comércio da ilha que vender pelo cartão.

Essa conta que o comércio pagará será de R$ 728.574,00; que é o resultado da multiplicação da taxa de 3,32 por cento que a firma cobra do comerciante que ao vender receber aceitando o Personal Card, pelo valor liberado pelo município para o programa, R$ 21.945.000,00. Essa conta: 21.945.000 x 3,32= 728.574,00.

Convém registrar que essa taxa de uso de débito em cartão de 3,32 por cento é muito superior a taxa mais elevada praticada no Brasil pelas operadoras de cartão de débito e crédito renomadas, que é a da Cielo, de 1,99 por cento; a usual gira ao redor de 1,5 por cento. Uma diferença para quem adora números de 66,83417 por cento.

Vai ser difícil encontrar um comerciante que diante dessa taxa não vá logo aumentando o preço da sua mercadoria em quatro por cento para imediatamente se livrar do tributo.

E uma vez que esse cartão só poderá ser usado cá na ilha, sem chance de passar em maquininha do atacadão ou do spani no continente, a possibilidade de haver remarcação de preço apesar da economia do país, ou melhor, do planeta inteiro estar no buraco, é grande.

É verdade sim que a prefeitura nada vai gastar com a Personal Net. Porque quem vai pagar essa fatura de mais de setecentos mil reais será o trabalhador quebrado de Ilhabela, cujas autoridades ora se banham em purpurina marqueteira vestindo o figurino de benfeitoras a cantarolar “Ilhabela Unida pelo Trabalhador”.

P.S.: Originalmente publicada no domingo, dia 12 de abril, a coluna foi atualizada no dia 13, com a inserção da relevante notícia do pagamento em dobro do auxílio emergencial para mulheres chefe de família pela Caixa Econômica Federal.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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