foto em foco: a marcha dos desalmados pela escolha sem volta

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Foi aprovado nesta segunda-feira o projeto de lei PL-027/ 2020 que vai destinar vinte e cinco milhões de reais ao amparo da população vulnerável de Ilhabela. São ilhabelenses que, diante da interrupção abrupta de seus ofícios, ficaram sem renda. Que perderam seus empregos formais. Que ficaram com seus salários suspensos. Confinados em suas casas, muitos deles sem dinheiro e até sem comida, estavam entrando em desespero diante de um futuro imediato de privação além das suas forças. O projeto aprovado é melhor que o de Maricá, mencionado em coluna anterior. Terá poder de assegurar aos que precisam, uma sobrevivência digna durante o período de isolamento social. A sua leitura, à primeira vista, nos passa a ideia de que foi redigido com sabedoria, bom senso, evitando dificultar o acesso ao recurso com burocracia desnecessária. Como todo projeto feito com pressa, poderá ser melhorado, passando por uma sintonia fina.

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As autoridades de Ilhabela ao o criarem e o aprovarem, prestaram um serviço relevante a sua população frágil e fragilizada pela paralisação da economia, dando um bom exemplo de governança solidária para o Brasil inteiro e merecem ser parabenizadas.

O governo federal que deveria tomar a frente no combate à pandemia está dividido, com discurso truncado e tem se mostrado ineficiente na tomada de ações que efetivamente protejam e amparem os brasileiros e salvaguardem a economia do país. O governo estadual, felizmente, tem discurso coeso e vontade política para implementar medidas com poder de auxiliar a sua população durante essa sofrida travessia, mas tem tardado em colocá-las em funcionamento imediato.

Nessa lamentável conjuntura, apesar de uma hesitação inicial que resultou numa demora inoportuna, tem se revelado prudente e produtiva a ação das autoridades de Ilhabela, trabalhando com diligência no vácuo deixado pela inação das estâncias superiores do poder público.

Entretanto, para que a sua avaliação continue positiva, é fundamental que esse programa assistencial recém-aprovado comece a socorrer os desamparados imediatamente. Muitos deles não têm mais como esperar. A urgência do socorro é impostergável. E o setor empresarial também precisa ser auxiliado. Se o projeto inicial de assistência dos vulneráveis era de cinquenta milhões e caiu pela metade, onde foi parar a outra fração? Que seja então destinada para ajudar comerciantes, hoteleiros, prestadores de serviço, enfim, todos os setores empresariais de Ilhabela que, passados poucos dias da paralisação da atividade comercial por causa das corretas medidas de isolamento adotadas, estão fraquejando, enfrentando dificuldades tão aflitivas quanto as vivenciadas pelos moradores carentes.

As medidas de isolamento, lastimavelmente, segundo relatos de moradores nas redes sociais, não têm sido inteiramente respeitadas. Há pessoas além do aceitável nas ruas, ilhabelenses vivendo como se tudo estivesse normal e não no começo de uma pandemia. Por isso as autoridades insulares precisam estar alertas, fazendo uso do seu poder para restabelecer a ordem em nome da saúde de todos.

O Costa Fascinosa que está atracado no porto de Santos com sua tripulação proibida de descer à terra, registrou trinta e cinco casos suspeitos de coronavírus. Além desses casos, sete pessoas haviam desembarcado nos dias 26 e 27 com suspeita de estarem contaminados. Dia 13 de março estava fundeado no canal despejando passageiros e tripulantes pela cidade. Relato no facebook informa que hoteleiro e seus funcionários tiveram sintomas da doença. Isso tudo nos atemoriza diante da possibilidade de que apesar de Ilhabela ter-se apartado do continente, essa medida terá a eficiência não de evitar que o coronavírus entre na cidade, mas sim de que não saia dela. Porque já estaria aqui. Só não mostrou ainda sua periculosidade.

Merecem atenção especial no município, dois acontecimentos recentes.

O primeiro é o da agressão sofrida no sábado por um funcionário público no desempenho da sua função de monitorar a entrada de pessoas na balsa. Revolta e decepciona perceber que exista na ilha quem seja insano o bastante a ponto de dar paulada em um trabalhador que coloca sua vida em risco para proteger as demais. Isso é inadmissível e condutas semelhantes precisam ser criminalizadas com rapidez.
A segunda notícia e ela forneceu a inspiração para o título da coluna – a marcha dos desalmados pela escolha sem volta – é a da carreata feita pelas ruas da cidade em defesa do afrouxamento das medidas de isolamento social, sob o pretexto de que as pessoas precisam trabalhar porque, senão, a economia local vai afundar.
Esse desfile de carros que pode ser conferido em vídeos compartilhados nas redes sociais, ficaria bem numa propaganda televisiva para enaltecer a indústria automobilística tantos eram os modelos de automóveis diferentes.
No meio da maçaroca destacavam-se abrutalhadas peruas Hilux, Rangers, Pageros, Jeeps Renegade, Land Rovers, Range Rovers e melhor encerrar a lista de exemplos porque é comprida e não convém aborrecer o leitor ou leitora com sua leitura. Apesar disso, é preciso ressaltar que entre eles não havia fusca, brasília, variant, monza, enfim, carros antigos e geralmente em mau estado de conservação usados pelas pessoas de parcos recursos.
Ao se assistir essa sucessão de reluzentes máquinas, muitas recém-saídas de concessionárias em fila interminável em prol da volta ao trabalho em Ilhabela que, ao fazerem essa manifestação, contrariaram a recomendação para que os moradores permanecessem em suas casas respeitando o isolamento social, surge uma pergunta que merece pronta resposta.
Essa gente no comando de objetos de status que custam dezenas de milhares de reais, alguns passando das centenas, se tem dinheiro para possuí-los e com ostentação exibi-los na rua, tem também para ficar sem trabalhar durante o período de isolamento. Poderia ficar em suas casas de papo pro o ar, enchendo a pança de comida gourmet, se embebedando com vinho chileno, uísque escocês ou cerveja premium, se enfastiando de tanto assistir netflix, sky, globo play…
Se tem, é tão evidente, excelentes condições materiais para passar pelo período de confinamento com conforto e segurança, por que cargas d’água abraçam essa pregação sem respaldo algum da Organização Mundial da Saúde, de qualquer cientista, médico, jornalista, governante verdadeiramente responsável, pelo abrandamento do isolamento social como ele está sendo recomendado? E em nome de voltar a trabalhar? Logo essa gente, vale frisar novamente, que pode se dar ao luxo de ficar sem trabalhar em casas tão confortáveis quanto os carros que a transportam?
A atitude que propõe no lugar é a do isolamento vertical, que confinaria em suas casas apenas a população idosa e pessoas com doenças crônicas ou saúde debilitada, permitindo que os demais seguissem trabalhando para que a economia não afundasse.

Em nome da ciência, do bom senso, do amor ao próximo é imperativo que se diga: isso é uma idiotice descomunal e no limite, é criminoso.

É impreterível que se esclareça que falar isso, não é dar uma opinião. Porque opinião a gente pode até contestar, discordar, replicar.
Não é. É fato comprovado pela Organização Mundial de Saúde, pelo Imperial College of London, por governantes solidários aos seus povos e até por alguns que num primeiro momento, pregaram o afrouxamento para rapidamente mudarem de ideia e publicamente se desculparem por terem se equivocado.

Não, não é opinião.

É fato. E contra fatos, não há argumentos, lembremos do clichê.

E não se trata de ser “democrático”, “exercer a democracia” para justificar uma pretensa discordância como se tratasse de uma segunda escolha possível.
Pois não se trata de eleição. Não podemos eleger “democraticamente” instituirmos o isolamento social vertical no Brasil ao invés do isolamento horizontal. Não é como foi no segundo turno das eleições presidenciais de 2018, quando tivemos a possibilidade de escolher eleger Fernando Haddad ou Jair Bolsonaro. Não é como se estivéssemos diante de uma nova eleição para agora escolher ou o candidato Isolamento Vertical ou o candidato Isolamento Horizontal. Porque, ainda que se essa hipótese maluca fosse possível, o candidato Isolamento Vertical teria sido impedido de concorrer pela Justiça Eleitoral; sua candidatura seria impugnada logo no seu lançamento.

Não, definitivamente, aqui não cabe falar em democracia.

Se essa proposta alucinada se restringisse a ser um programa de eugenia contra a população idosa, já seria uma temeridade.
Consentir com a morte dos idosos, além de ser uma atitude criminosa e anti-humanitária, é desfalcar a nação das mentes mais brilhantes, das experiências de vida mais exemplares logo num momento em que, passada a pandemia, e ela vai passar, elas fossem indispensáveis para orientar o trabalho de reconstrução.
Além disso, essa gente desalmada e esse é um juízo de valor inequívoco, se esquece ou não deseja perceber que é preciso fazer uma aritmética macabra.

Qual seja: no momento em que os infectados pelo coronavírus abarrotarem os hospitais, será impossível atender os ilhabelenses que se acidentarem gravemente, que tiverem complicações por causa de doenças crônicas, que enfartarem, que tiverem derrame, ufa, já deu para passar a ideia.
Esse monte de pessoas que pode nem conseguir passar da porta do hospital por causa da pandemia, ao ficar sem assistência, vai morrer.

E nem vai entrar na contabilidade dos mortos por coronavírus.
Pode morrer o entregador da farmácia que correndo feito doido pela ilha inteira estressado, se descuidar no guidão e se acidentar com gravidade. Pode morrer a moça do caixa do supermercado que tão atenciosamente nos atende porque ao tomar banho escorregou e bateu a cabeça fraturando o crânio. Pode morrer o idoso e até o jovem que estimulado por um vídeo irresponsável difundido na internet resolva ocupar seu tempo ocioso subindo no telhado para limpar as calhas da sua casa para evitar a dengue e leve um tombo, não morrendo na mesma hora mas fraturando o fêmur, a bacia, a cabeça. Pode morrer a criancinha que for picada por abelha e apresentar uma reação alérgica grave. Pode morrer o servidor público que durante o seu trabalho de fiscalizar a entrada na balsa, levou uma paulada dum maluco. Podemos parar com esses exemplos. Os profissionais da saúde podem elencar muitos outros para quem ainda se mostrar cético.

Escolha pelo caminho sem volta. Qual é o caminho sem volta?
A resposta é fácil. É o caminho da morte. Pois não existe, a não ser nas escrituras, – e aí a questão é de fé, não de ciência -, registro de quem tenha retornado do lado de lá.
A escolha pela morte de tantos ilhabelenses em nome da proteção da economia é um ultraje absurdo, inominável.
Porque a economia insular não vai afundar por causa do isolamento. Ela já afundou. Quem não quer enxergar esse fato ou é ignorante ou age de má fé. O Brasil inteiro afundou.
Quando a pandemia passar, será fundamental poder contar com o maior número de ilhabelsenses para voltarem a trabalhar em seus ofícios, empregos, negócios. A economia, devagar, retomará sua marcha.

Mas, se por desventura, for ouvida a pregação desses lunáticos, a chance é que no dia seguinte acordemos numa Ilhabela desfalcada de lideranças e trabalhadores fundamentais para o desafiador esforço de reconstrução.

Diante da manifestação criminosa dessa gente alucinada, a prefeitura, a câmara, o poder judiciário, ao invés de abrandar as medidas de proteção, deve é reforçá-las.
Pelo bem da saúde pública, as autoridades locais jamais deveriam ter permitido essa carreata de dementes. Deveriam ter feito o que fizeram as autoridades municipais da cidade de Andradina ao saber que haveria uma carreata como essa que aconteceu em Ilhabela; deveriam ter acionado o poder judiciário para imediatamente ter sido proibido esse festivo desfile de mentecaptos.
Para comprovar que, felizmente ainda existe bom senso entre os brasileiros,  abaixo fica transcrita trecho da sentença proferida pelo juiz Victor Gavazzi Cesar do Foro de Adradina.
“Não se ignora que a liberdade individual, a qual abrange o direito de ir e vir, e o direito de reunião pacífica, também são direitos fundamentais garantidos pelo texto constitucional. No entanto, assim como os demais fundamentos, não ostentam natureza absoluta, podendo ser mitigados quando em colisão com outros de igual envergadura, especialmente em circunstâncias excepcionalíssimas, como a atualmente vivenciada, cuja mitigação não visa silenciar as ideias ou a livre expressão, mas a preservação da saúde dos próprios reivindicantes. Diante da colisão de direitos fundamentais, deverá prevalecer a saúde coletiva sobre a liberdade individual e direito de reunião, restringidas episódica e momentaneamente, prestigiando-se o compromisso de todos com a saúde e o bem comum, especialmente considerando que as normas em questão estão em sintonia com orientações de profissionais de saúde e tem como principal enfoque a proteção da coletividade e do sistema de saúde, que se encontra sob risco premente de colapso, em caso de letargia das Autoridades Públicas.”

Traduzindo para o bom entendimento: em situações excepcionais como o dessa da pandemia, o direito de ir e vir fica em segundo plano diante do dever de se preservar a saúde pública da população de manifestações públicas envolvendo aglomeração de pessoas que afrontem e ponham em risco as medidas sanitárias adotadas pelos profissionais da saúde.

Seguramente vai haver quem grite que carretas aconteceram pelo país inteiro e blablablá. É certo. Mas deveriam ter sido todas proibidas.

Ao se apossarem das ruas quase desertas de Ilhabela flanqueadas por motociclistas do departamento de trânsito, essa gente desatinada se sentiu poderosa; no direito de defender e lutar por essa tese disparatada.

E agora pululam relatos que essa galera, sentindo-se senhora de si, lisonjeada pelo município que fez essa sua procissão de ignorantes ser acompanhada por batedores como fossem eles importantes autoridades, está constrangendo outros ilhabelenses, inclusive os desrespeitando publicamente, os intimando a assinarem petições pela liberação do comércio na ilha.

É o que acontece quando o mal não é cortado pela raiz; ele se espraia e contamina a mente e coração dos outros de maneira tão nociva quanto o coronavírus pode fazer com o corpo delas.

“Ante o exposto, com fundamento no artigo 300, do Novo Código de Processo Civil, defiro a tutela de urgência antecipada, e o faço proibir a realização do evento em questão, expedindo-se ofício ao comando da polícia militar de Andradina, para que tome as medidas tendentes a evitar qualquer aglomeração de pessoas no local indicado para a realização do evento, sob pena de desobediência. Não obstante, deverão ser identificados, tanto quanto possíveis, os eventuais presentes e/ou lideranças do aludido evento no local, que deverão ser cientificados que, em caso de descumprimento da ordem, poderão se sujeitar às sanções legais.” Esse é outro trecho da decisão do Juiz Victor Gavazzi Cesar.
Tivessem as autoridades de Ilhabela acionado o poder judiciário e ele tivesse prontamente se pronunciado como o fez o juiz Victor e não teríamos tido na cidade esse corso de histéricos estripando a calmaria das ruas com seu buzinaço.

Agora, Inês é morta. Não pelo coronavírus ou por ter sido atropelada na carreata. Inês é morta é uma expressão popular que significa “não adianta mais”.
Houve a manifestação e agora os seus destemidos participantes partiram para a ignorância, para o confronto aberto com quem pensa diferente deles e incendiaram o whatsapp e o facebook de Ilhabela, tornando o ar insalubre, irrespirável, tamanha é quantidade de insultos, de palavreado chulo, de grosserias circulando.
Ao lado desses atos lamentáveis, vergonhosos, há reais demonstrações de solidariedade encantadoras. E muitas vezes partindo de quem, tendo tão pouco, não mede esforços para ajudar os necessitados. Os que estão dentro de casa aflitos sem dinheiro e sem alimentos. Essas pessoas são capazes de comprometer sua própria alimentação para alimentarem seus vizinhos. Organizam movimentos com amigos e familiares para arredar compras de mercado, farmácia e entregá-las para seus conhecidos e estranhos em dificuldade. Se apresentam voluntariamente para sair nas ruas fazendo tarefas para idosos confinados.
São exemplos. São humanas. São solidárias.
E não estão se preocupando se a economia de Ilhabela vai afundar, afundou, meio que afundou… Elas olham em voltam e ao enxergarem seus iguais fragilizados, são empáticas, sofrem por eles e sentindo-se no dever moral de ajudar, ajudam. Sem estardalhaço, sem postar nas redes sociais para se promoverem, sem fazer gritaria na rua. Elas não vivem o dia de amanhã; vivem o dia de hoje. E por isso a inquietação que a quebra da economia poderia provocar na ilha, não está no seu horizonte. Está a dor daqueles que lhe são próximos e para confortá-los, não medem esforços.
Esses ilhabelenses, essas ilhabelenses de bom coração certamente não estavam nesses carros modernosos em patético desfile por ruas afrontadas por buzinas coléricas.

Afinal, por que abraçariam essa bandeira da “volta ao trabalho” se não pararam de trabalhar? Os solidários trabalham sem parar cuidando de si, das suas famílias, dos seus amigos, dos seus vizinhos e de estranhos que precisam de ajuda. Os solidários cuidam das suas casas onde há trabalho interminável.

Mas muitos dos privilegiados dessa carreata com endinheirados não vão saber o que isso significa pois jamais a vida inteira precisaram arrumar suas camas, preparar suas refeições, higienizar o vaso sanitário onde se aliviam. Sempre havia uma doméstica ou doméstico que fizesse isso por eles.

Os solidários inventam o tempo inteiro maneiras de auxiliar os sem recursos, aqueles que não desfilam garbosos pelas ruas da ilha a bordo de pajeros, land rovers, range rovers, audis e outros caros automóveis de grife.

Elio Gaspari relata sua decepção com o comportamento da FIESP nessa pandemia.
“A Fiesp mostrou um rosto cenográfico e alguns grandes empresários mostraram-se pedestres e pedinchões. (Paulo Skaf, presidente da Fiesp, prometeu 5.000 leitos. Enquanto ele falava, o ministro Luiz Henrique Mandetta tamborilava com os dedos na mesa.)

No dia seguinte a essa cena espetaculosa e irrelevante, uma franquia da Domino’s, sem fanfarra, mandou umas 30 pizzas aos profissionais da saúde de um hospital público do centro do Rio, com o seguinte bilhete: “Com um toque de amor, em agradecimento a todos vocês que estão linha de frente, se sacrificando por nós”.

De vez em quando, surge a ideia de que o ato de pagar (e de receber) não é tudo na vida de um povo, de uma empresa ou até de uma pessoa.”

A elite econômica da nação agrupada nessa federação não sabe o que é ser solidária.

E Ilhabela espelha o Brasil. Não há notícia de ação solidária portentosa de associações empresariais em Ilhabela. Pode haver ação de um comércio ou prestador de serviço, mas será isolada e não decorrência de um movimento conjunto, organizado por instituições de classe. Se houver alguma ação de vulto, está sendo mal divulgada porque não se encontra notícia na imprensa.

O movimento organizado que foi essa carreta pelo relaxamento das medidas de isolamento social horizontal na cidade nada tinha de solidário. Além de não prestar qualquer auxílio efetivo para os moradores em dificuldade, ao irresponsavelmente incitá-los a voltarem a trabalhar, os expuseram ao risco de comprometerem a sua saúde, a dos seus familiares, enfim, a saúde de Ilhabela, podendo sim a fazer trabalhar a ponto de colapsar, deixando sem assistência quem precisar.

Poderiam ter abarrotado suas picapes com alimentos e saído pelas ruas os distribuindo para a população vulnerável.

Mas não. Preferiram transportar ignorância, arrogância, truculência.
E com essas três ruindades abomináveis estão nesse momento, é preciso repetir, fazendo tanto barulho nas redes sociais quanto fizeram na rua, para intimidar ilhabelenses a aderirem essa sua bandeira de dementes sob alegação de que quem não o fizer, não quer o bem de Ilhabela, o que, no limite, justificaria encampar a desobediência civil, afrontando as recomendações das autoridades de saúde de Ilhabela.

Poderiam formar grupos de auxílio aos despossuídos em maior gravidade, que não têm tempo nem paciência de esperar pelo recebimento do amparo aprovado pela prefeitura porque precisavam ter sido socorridos lá atrás.
Mas não. Preferem nesses seus grupos virtuais de ressentidos pregar o caos, o fim do mundo, postando fotos de um supermercado saqueado em São Vicente em 2013 como se tivesse acontecido agora por causa da pandemia. Pior, postam vídeo de um mulher humilde em desespero na frente da prefeitura gritando por auxílio.
Fossem solidários, tranquilizariam essa senhora lhe contando que as autoridades estão fazendo seu dever. Se fossem verdadeiramente solidários, abririam a carteira e dariam para essa moradora dinheiro suficiente para fazer uma compra de alimentos.
Se fossem solidários, teriam respeitado a sua dor e não a filmado para tornarem público nas redes sociais seu vexame.
Ao invés de pregaram a serenidade e a solidariedade; ao invés de prestarem bom serviço divulgando informação de fonte confiável, estimulam a desobediência civil. Despertam a desarmonia, o egoísmo, a ignorância, a brutalidade, a desumanidade.

Não dá para sair na rua e tirar foto desrespeitando o isolamento social. Principalmente quem é idoso. Então se ilustra esta foto em foco com a arte do articulista. Abaixo uma  gravura, uma xilografia de topo, imagem pequena, feita na década de noventa. Ao a observarem, que por favor não se melindrem os espíritos preconceituosos e ignorantes apedrejando a imagem a pichando de pornográfica, escatológica e seu criador de pervertido. É somente um “desenhinho” num pedaço pequenino de papel bastante frágil, papel arroz japonês. Nada mais do que isso.

Essa gravura se chama tristes trópicos. O título foi inspirado no clássico ensaio de antropologia homônimo de Claude Lévi-Strauss que dava a entender que o Brasil passou da barbárie à decadência sem ter conhecido a civilização. Essa ideia incômoda estimulou a feitura de dezenas de gravuras agrupadas nesse mesmo assunto, sob o mesmo título compondo uma série que rodou pelo correio o país e mundo afora.
Ela é da época de Fernando Collor, o presidente que se auto intitulava “o caçador de marajás” e chegava ao poder nos braços de uma campanha pela moralidade, pela honestidade. Foi apeado da presidência, ou melhor ele mesmo apeou dela renunciando antes do término do processo de impeachment. Fernando Collor de Melo entrou para a história como um embusteiro, uma fraude. Olhando essa gravura antiga a sensação que temos é que o Brasil dá voltas e mais voltas e não sai do lugar. Ou para ser mais exato, sai, para cair em lugar mais insalubre ainda. Seu título em inglês é gloomy tropics e passa uma imagem contraditória: trópicos sombrios, tristes, melancólicos. Porque a gente os imagina como quentes, solares; jamais escuros.

Inserir essa imagem logo nesse ponto do texto não foi gratuito. A par de fornecer um breve momento de respiro ao teimoso leitor ou leitora que atravessou todo esse manancial de palavras, ela marca o ponto inicial de uma elucubração que vai deixar gente pra caramba espumando de raiva além do que já está.

O texto da propaganda da carreata era o seguinte:

Carreata Ilhabela

#eu quero trabalhar

#volta Brasil

#Bolsonaro tem razão

“vamos isolar os idosos e tratar os enfermos

o resto tem que voltar pra guerra!”

Esse doideira de texto, não merece réplica. Mas vamos lá.

Quer trabalhar, vai limpar o quintal, passar cloro na privada, vai lavar louça, vai cozinhar, vai arrumar a cama, vai lavar roupa, vai passar roupa… Para quem está dentro de casa, o que não falta é trabalho.

Volta Brasil? Pra onde? Pra sair do buraco em que vocês o enfiaram quando escolheram se lançar no abismo? Num ato de brutal inversão de valores e sobre isso escreveu com propriedade Antonio Prata na sua coluna intitulada “pandemia da imbecilidade”?

Bolsonaro tem razão. Essa vamos pular para voltar daqui a pouco para dela melhor falar.

“Vamos isolar nossos idosos e tratar nossos enfermos”. Quer dizer o que? Vamos construir um campo de concentração no topo do Baepi e deixar a velharada da ilha lá no alto para morrer mais rápido ou de fome ou de insolação?

“Vamos tratar nossos enfermos”. Vai ser bem difícil diante da completa falência do serviço de saúde de Ilhabela.

“O resto tem de voltar pra guerra!” Com ponto de exclamação. Não caiu a ficha desses lunáticos. Não estamos em guerra. Estamos em estado de calamidade no meio de uma pandemia. E se passaram poucos dias da prática do isolamento horizontal. Estamos só no começo e esses arrogantes falam de guerra desejando tornar o “resto” dos moradores de Ilhabela soldados do seu exército de Brancaleone. Perdão, exército de Bolsonaro. Exército do messias, como se o horror que vivemos pudesse ser reduzido a uma cruzada, uma guerra santa. Exército do mito, que deve esse epíteto a uma corruptela do seu apelido quando era cadete do exército: palmito. Isso mesmo, palmito porque era magrelo e comprido. O mito é um pé de palmito.

Se as autoridades públicas de Ilhabela, se os promotores do ministério público tivessem lido com atenção esse texto ignóbil, deveriam ter proibido essa funesta manifestação de bucéfalos na hora porque longe de buscar estimular comportamento responsável e solidário da sociedade ilhabelense, seu verdadeiro propósito era o de semear a desobediência civil inspirados por politicagem cretina.

Bolsonaro. Bolsonaro é um sociopata. Um político rastaquera da escória do baixo clero do congresso nacional onde ganhou vida fácil durante quase três décadas sem ter feito nada que prestasse. Pois ter sido motivo de chacota não pode ser considerado ação útil. Suas declarações públicas preconceituosas, seu comportamento belicoso deveriam ter sido repudiados por seus pares e criminalizados pela justiça. Mas não foram. Pensavam que não passava de um bufão, um palhaço grotesco, um tiozão sem noção. E agora é ele que preside a nação dando péssimo exemplo ao povo e ao mundo. Ele que preside o Brasil que no imaginário das pessoas do planeta era um país cordial banhado em luz, em pouquíssimo tempo o transformou numa nação sombria e intolerante. Obscureceu a luz dos trópicos, tornando-os tristes e escuros.

Seu cálculo político, tudo indica, é temerário. Sabe que a conta da recessão vai cair no seu colo e vai inviabilizar sua reeleição. Então abraça esse discurso de que as medidas contra a pandemia são rigorosas demais torcendo no fundo para que sejam corretas, para que no Brasil não morra tanta gente como vem morrendo na Itália, Espanha, Estados Unidos. Se for assim, ele vai posar como vítima dos políticos e juízes. Vai jogar a conta da recessão no colo deles e infernizar todo o país berrando que tinha razão.
No fundo ele quer que o isolamento não seja quebrado; que as pessoas respeitem as autoridades sanitárias.
Então ele fica nesse vai e vem. Parece concordar com elas num dia para no seguinte exibir para o espanto do país inteiro sua irresponsabilidade criminosa dando a mão para o povo massa de manobra populista.”É uma gripezinha”. “No meu caso em particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar”. “Infelizmente algumas morte terão. Paciência”.

Não obstante, pode é claro, valer outra hipótese, a de que ele realmente acredite nessa bestialidade. Aí, estamos perdidos. Porque ele poderá demitir o ministro da saúde que vem se comportando dignamente e colocar um idiota puxa saco no lugar. Decretar a volta da normalidade logo no começo da pandemia.

A prefeita de Ilhabela tem uma responsabilidade gigantesca nos seus ombros. Ela tem o poder de não aceitar essa volta à normalidade decretada e impor que o comércio continue fechado. Autoridade para isso, tem. É competência do município legislar sobre o funcionamento do seu comércio. O ideal é que contasse com forte apoio popular. Se não o tiver, terá de ter a coragem dos verdadeiros estadistas.
Num primeiro momento, poderá sofrer oposição desses desvairados e até do povo pobre por eles ludibriado. Mas o juízo da história que não se engana e se ilude a elevará numa altura que prefeito ou prefeita algum da ilha alcançou.

Último respiro com gravuras da série “o triunfo da morte”, inspiradas num tema recorrente da história da arte e bastante explorado na xilogravura medieval. Novo aviso. Aos que se perfilam ao lado dos ultra direitistas de moralismo raso que empastelaram a exposição coletiva Queermuseu no Santander Cultural de Porto Alegre e injuriaram a performance la bête no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Essas imagenzinhas percorreram todos os continentes participando de dezenas de salões, bienais e trienais de arte gráfica e nunca foram demonizadas; muito ao contrário, foram medalhadas pra caramba. A mais brilhante distinção foi conquistada em 1994 na Suíça, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing, que na edição anterior havia premiado Rubem Grilo. Se ainda assim houver quem ache ruim porque tem mulher e homem pelado, isso também tem demais da conta na Capela Sistina que é templo religioso e de maneira bem mais realista. Bom, e àqueles que acharem que elas são chocantes, cabe retrucar, chocante é a pandemia, não esses desenhozinhos.

 

Nunca foi  intenção dessa coluna depreciar a classe empresarial de Ilhabela. A aflição que estão vivendo empresários, comerciantes, – os empregadores da cidade -, não é menor do que a que vive a população vulnerável.

O temor da falência de seus negócios provocando a demissão de funcionários que se tornaram amigos, a dor de perceber que o trabalho de vidas inteiras e mesmo gerações pode ir pro ralo, atormenta sem trégua esses ilhabelenses.
Mas a proposta de abrir o comércio não é oportuna até porque, mesmo aberto, é provável que o movimento seja tão fraco, que maior será o prejuízo. Porque os moradores preocupados com os demais estão obedecendo o isolamento social e não vão sair na rua.

É absolutamente legítimo que a classe empresarial da ilha cobre da prefeitura uma política que os ampare nesse momento tão difícil. Eles não podem quebrar agora porque se isso acontecer, a recuperação econômica ficará comprometida.

E a prefeitura não dará a mão aos empregadores fazendo favor. É sua obrigação. Se não o fizer, os que a comandam agora serão duramente recriminados quando a pandemia passar.
Neste instante, muito empresário, comerciante, hoteleiro, enfim, o pessoal que capitaneia a economia insular, está conversando com as autoridades, oferecendo sugestões, estudando medidas.
Essa é a atitude responsável que se espera desses ilhabelenses que tornam a vida na ilha confortável, oferecendo aos seus moradores produtos e serviços imprescindíveis.

É imperioso repetir: essa carreata foi um desserviço e os que dela participaram deveriam ficar envergonhados e pedir desculpas por terem estado nessa ação divisionista, instigadora do caos e da desobediência.

A escolha entre os tipos de isolamento não existe. É fato. É fato que Jair Bolsonaro vem plantando a cizânia, a discórdia, a histeria.
A população de Ilhabela que majoritariamente o elegeu, em boa parte reconhece a impropriedade da sua decisão e está fazendo um mea culpa.

Esse, talvez, seja um dos pontos positivos de vivermos essa pandemia. Revermos nossos valores.

Rever nossos valores para ter em foco quais são os que verdadeiramente importam.

Os de sermos solidários e responsáveis.

Evitando a má educação, o desrespeito, a agressão gratuita.

Nesse momento em que as redes sociais de Ilhabela se consomem nas chamas da leviandade, os ilhabelenses precisam ter em mente que tudo que escreverem sobreviverá passada a pandemia ou como testemunho de sua atitude cidadã e solidária ou como vergonhoso testemunho da sua estupidez e desumanidade.

Ainda que consigam apagar dias depois suas falas injuriosas, elas já terão sido objeto de captura de tela dos que foram ofendidos.
Nesse particular a foto em foco tem estado bastante ativa na ação de eternizar esses comentários virulentos e despropositados as suas matérias a ponto de já dispor de material suficiente para uma coluna inteira.

Uma foto em foco sem texto, só uma interminável sucessão de imagens de captura de tela carregadas de raiva, falta de educação, belicosidade. Que daria um conveniente descanso aos fatigados idosos neurônios do articulista.

Apropriadamente, fazendo paródia do romance de Gabriel Garcia Márquez, se intitularia “o ódio nos tempos do coronavírus”.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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