foto em foco: a congada que não vamos ver

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A congada que não vamos ver.

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Amanheceu nublado com as ruas da Vila vazias de festa.

A sexta-feira nasceu surda da percussão hipnótica da marimba.

As manhãs de maio sempre foram douradas, mas a sua luz hoje empalideceu e perdeu seu calor num frio de doer ossos.

Não há dança, nem há canto.

Porque o dia se fez enlutado.

A lembrança do embate de final feliz ora é lenda.

A solidariedade das pessoas desiguais vive num passado de sonho.

A devoção ao santo cozinheiro negro e pobre trombou com a porta da igreja fechada.

Hoje no dia mesmo em que caiu o segundo ministro da saúde no meio dessa sinistra pandemia, o Brasil inteiro sinistro se tornou ao mundo.

Dona Dedé no lado de lá se tiver olhos para nos enxergar mais lágrimas haverá de derramar que a água toda que molhou os paralelepípedos da praça Coronel Julião nesse dia de sexta-feira, 15 de maio de 2020, sem cor, vibração e canto.

Sem bolo, concertada e ucharia.

Sem gente de todas as cores e credos; gente de berço indigente ou berço de ouro; gente dos ofícios mais diferentes; gente humilde e gente importante; gente dos lugares mais diversos se sentando todos muito juntos lado a lado e sem máscaras feito irmãos numa mesma gigantesca e familiar mesa dividindo uma caseira refeição feita e servida voluntaria e caridosamente por tantos homens e mulheres que, hoje, despertam de coração apertado nessa manhã enevoada e triste.

Hoje, não se fotografa nada e a luz linda que o dia não mais tem bem de leve a sentimos vendo antigas fotos que nos fazem lembrar dos dias de sonho em que fomos todos por um instante solidários e felizes; dos dias em que escolhemos confraternizar em vez de brigar.

 

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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