foto em foco: a ilha da intolerância

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A pandemia do coronavírus em Ilhabela antes de, felizmente, não registrar óbito de ilhabelense, teve o poder de transfigurar consagrados slogans publicitários que vendiam a ilha para o Brasil e o mundo.

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O primeiro deles é o “Ilhabela te recebe de braços abertos”.

A cordialidade insular foi pra cucuia; escafedeu-se. Como a foto em foco observou em coluna anterior, essa perda ocorreu com o decreto do dia 20 de março que fechou a balsa.

Não que ele fosse indesejado para assegurar um melhor controle do isolamento social. O problema é que foi feito numa atitude de “botar o carro na frente dos bois”. O aconselhável é que o fechamento fosse decretado depois do fortalecimento do isolamento social horizontal.

Mas não.

Quando os moradores souberam que a balsa estava cortada, que a ligação com o continente fora interrompida, se entregaram à fantasia de que ficariam imunes ao coronavírus, como se ele não pudesse penetrar na ilha. E, literalmente, fizeram a festa. Nas praias, nos restaurantes, nos bares. Como se estivessem todos de férias.

E isso, evidentemente era uma alucinação.

Pois como observou a foto em foco anterior, o Costa Fascinosa que ora está aportado em Santos com sua tripulação proibida de descer à terra havia no dia 13 de março derramado toda ela junto com milhares de turistas para todos se esbaldarem na ilha. Há vários relatos de pessoas que tiveram os sintomas da contaminação e se recuperaram. Não fizeram o exame para comprovar se era devido ao coronavírus; mas pelos sintomas apresentados, principalmente a dificuldade de respirar, a possibilidade de terem adoecido por causa dele, existe.

Então, é ilusão pensar que o vírus não vai entrar porque ele já pode, sim, ter entrado faz tempo e só não revelou sua face assassina.

Apesar dela não ter se revelado,  tornou-se assustador o comportamento de uma parcela dos ilhabelenses em relação aos turistas e veranistas, tratando-os feito eram tratados os leprosos em passado envergonhado ou os judeus na Alemanha nazista.

Longe de receber essas pessoas de braços abertos, hoje as insultam; as lincham virtualmente e o risco de passarem a fazê-lo na realidade, lastimavelmente não é desprezível.

Vizinhos de veranistas se indignam de vê-los fazendo churrasco em suas casas e abrem berreiro.

Mas qual é o problema? Se estão respeitando o isolamento, por que não podem fazer churrasco?

Essa raiva contra veranistas e turistas é injustificável e imperdoável.

Umas das piores moléstias é a do preconceito. Precisamos combatê-la tanto quanto combatemos o coronavírus.

Outro chavão que se modificou foi o do “Ilhabela vida natural”.

Neste momento, surgiu uma polarização entre os munícipes.

De um lado estão aqueles que participaram da carreta da sexta-feira, analisada detalhadamente na “marcha dos desalmados pela segunda escolha”. Acham que o máximo de pessoas deve voltar a trabalhar para evitar a recessão na ilha. Se esquecem de que ainda que fosse possível fazer isso, praticar essa estultice, a recessão que se abate sobre o Brasil inteiro e o mundo haverá de deitar suas garras em Ilhabela mesmo que todos os ilhabenses retornassem ao trabalho normalmente agora. Tendo, é claro, antes de voltar à labuta, confinado sua população idosa num campo de concentração no topo do baepi, dando assim à velharada a chance de se jogar no abismo para se poupar, não da pandemia, mas da dor monumental de perceber a desumanidade dos seus filhos.

Aí, ficam enchendo o saco, e na verdade essa expressão de mau gosto é até lisonjeira diante do que verdadeiramente fazem, uma guerrilha sem trégua nas redes sociais, xingando os moradores que respeitam o isolamento social horizontal de vagabundos por ficarem em suas casas sem trabalhar, como se dentro de casa não houvesse trabalho.

Trabalho é o que não falta para quem permanece em casa. Tarefas domésticas cobram atenção e esforço o tempo inteiro e apesar de postarem na internet a existência de um medicamento para os intranquilos chamado bundanosofá, quem zela pela salubridade e conforto da sua moradia tem pouco tempo para pôr a bunda no sofá e ficar olhando o teto, ou melhor, a tela da TV.

Forçoso reconhecer, que juntamente com a pandemia do coronavírus, outra surgiu tão perniciosa: a pandemia da imbecilidade. Cujo infectado e infectador mor é o presidente da república. A sua estratégia aloprada foi destrinchada no citado artigo.

Como essa foto em foco anterior destacou, Ilhabela é predominantemente bolsonarista. Contudo e felizmente, parcela expressiva desse eleitorado percebeu o desastroso equívoco do seu voto e muitos, inclusive, fazem mea culpa.

Não obstante, resistem na estupidez delinquente uma legião de desalmados, boa parte deles presente nessa malsinada carreata que bradava “Bolsonaro tem razão”. Lisonjeados pelo tratamento vip que graciosamente lhes ofertaram as autoridades municipais colocando a seu desserviço batedores da polícia militar e do departamento de trânsito, sentem-se fortalecidos e com direito a forçar os demais ilhabelenses a aderirem a sua pregação anti-humanitária e incitadora da desobediência civil assinando petições pelo relaxamento das medidas de proteção.

No outro lado do espectro, há moradores que pregam absoluto rigor no isolamento a ponto de o tornarem quarentena compulsória. E quando veem velhinhos andando na rua ou jovens ou quem quer que seja fora de casa, se inflamam a ponto de quererem fazer o que fez o maluco da balsa dando paulada em servidor público. Não pensam que os velhinhos podem estar indo ao supermercado porque não têm quem faça isso por eles. Que outros que caminham podem estar se dirigindo aos seus empregos essenciais para o funcionamento da cidade em paralisia.

Quem tem competência para exercer a fiscalização são os órgãos com poder de polícia; não os munícipes.

A prefeitura, caso opte por agir com lerdeza diante da situação de esgarçamento social que clamava por imediata atenção no passado pretérito, lançará no lixo a conquista que foi ter criado e aprovado o projeto de assistência social no dia 30 de março. Tudo por falta de assertividade em resolver com a indispensável celeridade a logística da distribuição do dinheiro.

O programa de distribuição de cestas básicas com atendimento por telefone funciona somente das nove horas às catorze horas de segunda a sexta. Por que organizaram um horário tão restrito? Por que não atendem no final de semana? Com a disponibilidade de tantos servidores parados e de tantas linhas telefônicas ociosas, por que não ofereceram à população vulnerável um serviço de primeiro mundo?  Valia a pena ligar para conferir qual musiquinha escolheram para quem vai ficar na espera de voz humana e faz esforço gigantesco para continuar ainda esperando diante da urgência da sua própria fome e da fome das suas famílias. A usualmente empregada era a Gymnopédie nº 1 de Erik Satie.

Podiam ter sido inteligentes e escolhido a Sonatine Bureaucratique do mesmo compositor que, sem dúvida, seria bastante apropriada para a situação. Depois de passar pelo atendimento que pouco fica a dever aos mais impiedosos call centers, os carentes vão ter de aguardar ainda mais. Que seu pedido seja criteriosa e minuciosamente analisado para quem sabe ser aprovado lá pelas calendas gregas. Se for aceito, será preciso retirar a cesta num único local e em estreito horário pré determinado. O que incentivará o deslocamento dos famélicos pela cidade vindo dos locais mais distantes. Não seria muito mais lógico, piedoso e humanitário, encher um caminhão, unzinho só que fosse desses que estão empoeirando na garagem municipal e sair distribuindo pelos locais carentes?

É preciso enfatizar como o foi na enorme coluna anterior que tanto a câmara como a prefeitura precisam com urgência aprovar um programa de socorro ao empresariado insular antes que seus membros se juntem aos infelizes que fazem cena vexatória na frente dos palácios, o da Princesa e o da Sauna de Cristal Matagado.

Matagado significando com mato em volta. Esse mataréu que botaram preso nas paredes externas do prédio de aço, vidro e alienação da sede da prefeitura na aflição de resolverem o desconforto ambiental causado pelo projeto indigente e milionário.

A demora, seguramente haverá de propiciar que ao invés de curtos vídeos de moradores alucinados berrando na frente do palácio sauna de cristal matagado que correm céleres nas redes sociais descerebradas, façam logo longa metragem exibindo os famintos se atirando na frente desses carros pretos funéreos que cerimoniosamente transportam pela cidade os donos do poder legislativo e executivo insular. Uma produção cinematográfica para incendiar o barril de pólvora da iniquidade que os arautos bolsonaristas do caos festivamente vão celebrar agradecidos.

Então todos juntos, bolsonaristas fanáticos, quarentenistas caxias e os que não estão nem lá ou cá, vão assistir batendo palmas frenéticas o patético show da dança trôpega dos vulneráveis de Ilhabela com seus empresários falidos e por falir. Esses pobres coitados vão bailar feito estivessem no filme “a noite dos desesperados” de Sydney Pollack.

E novos mantras publicitários se consolidarão frente a essa realidade funesta.

“Ilhabela vida intolerante”.

“Ilhabela, a ilha da intolerância”.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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