no dia da mulher, a câmara incendiou

no dia da mulher, a Câmara incendiou

coluna de opinião da série viagem pitoresca & histórica ao brasil pátria amada brasil

Márcio Pannunzio, texto & fotos

Seria mais uma daquelas sessões de concessão de honrarias, tão ao gosto da egrégia câmara das leis ilhabelense. Seria mais uma daquelas sessões adulatórias, enaltecedoras de munícipes tidos como exemplares, tão comuns no calendário da excelsa casa legislativa de Ilhabela. Seria mais uma daquelas sonolentas sessões discursivas, tagarelas, laudatórias do insigne parlamento insular pra uma plateia quase às moscas. Tudo para comemorar essa data tão nobre e festiva, o dia da mulher, efeméride criada pela Organização das Nações Unidas na distante década de setenta e, antes que algum bozolóide raivoso e ressentido, invejoso da graça de nascer mulher, reivindique um dia do homem, convém informar que ele existe e na pátria mãe varonil nadinha gentil brasil, é festejado no dia 22 de julho. Dia esse que, portanto, poderia ser usado pela nobilíssima vereança habitante da casa da princesa para a criação de mais uma daquelas sessões panegíricas, glorificadoras de vidas ilhabelenses que nem essa aí de cima que seria, porém não foi posto que se incendiou.

Mas, enfim, seria aquele dia, o 8 de março, o dia da mulher, mais um daqueles dias de sessão legislativa esquecível e exemplar da atuação brilhante, destemida e conscienciosa da edilidade tecendo loas e boas à respeitabilidade cidadã, no caso, de nove mulheres que receberiam certificados de distinção pública, não fosse o fato do vereador Raul Cordeiro ter soltado cobras e lagartos e muito mais cobras do que lagartos, da tribuna, tascando fogo no emérito recinto.

“Eu pergunto a todos os vereadores que reprovaram meus requerimentos, quando os senhores bateram na porta dos seus eleitores pedindo voto, era pra isso? Pra isso você saíram candidatos? Pra trabalhar contra a cidade? Pra trabalhar contra o eleitor? Eu tô com medo do que essa cidade vai virar. Se falava tanto em coisa errada na administração passada, mas pelo menos tinha uma câmara ali que segurava muita coisa. Agora, do jeito que anda, eu não sei o que o prefeito vai ser capaz de fazer. … Eu não vou baixar a orelha, eu não vou me render, eu não vou me vender pra esse governo corrupto que está acabando com a nossa cidade. … “

Os requerimentos de pedido de informação eram dois: um sobre a empresa de ônibus Fenix e outro sobre o carnaval fora de época.

É função primordial da atividade parlamentar municipal fiscalizar o poder executivo; isso está escrito em todos os regimentos de câmaras municipais Brasil inteiro, inclusive, no da de Ilhabela no seu artigo 2º:  “a Câmara tem funções legislativas, exerce atribuições de fiscalização externa, financeira e orçamentária de controle e de assessoramento dos atos do Executivo e pratica atos de administração interna”. O juramento dos vereadores na cerimônia de diplomação, longe de ser empolado e comprido é bem curto e claro:prometo exercer, com dedicação e lealdade, o meu mandato, respeitando a constituição e as leis e defendendo os interesses do município”.

Interesses do município e não os do poder executivo. Infelizmente, ao funcionarem feito despachantes intermediando demandas da população à prefeitura, vereadores e vereadoras país afora estabelecem, muitas vezes, conexões inadequadas, quando não indecorosas, com o poder que deveriam fiscalizar.

lixo, vazamento d’água, podas, tapar buracos; dá-se jeito pra isso tudo

Pedidos de poda, pedidos de tampar buracos, pedidos de iluminação na rua e tantos outros assemelhados podem ser feitos diretamente às secretarias competentes. Ha informação pública de emails, de telefones, para cobrar diretamente essas tarefas. Há a sala da do cidadão. Ilhabela tem sua carta de serviços e seu canal na internet para solicitá-los, evitando deslocamentos desnecessários dos munícipes interessados.

vereador pra quê?

Ilhabela tem uma carta de serviços detalhando onde solicitá-los

e dá pra fazer tudo pela internet sem gastar sola de sapato e paciência

Na extraordinária câmara ilhabelense que retornou do seu recesso em fevereiro, foi aprovado praticamente na íntegra, o projeto do poder executivo sobre a reforma administrativa da prefeitura, com dois votos contrários, um deles do vereador Raul, outro do vereador Edílson dos Santos. Embora tenham sido cortadas as subprefeituras dessa ilhabela cidade das mais ricas do brasil que se imaginava metrópole turística, onerosos cargos de secretário adjunto e de nova diretoria que não existiam antes e que nem falta faziam, foram criados.

projeto de reforma administrativa da prefeitura enviado à câmara pelo executivo foi aprovado com poucas modificações

Na retomada dos trabalhos legislativos, nenhum projeto de lei de utilidade pública, criado por vereador ou vereadora, foi posto sob análise.

A maioria dos requerimentos apresentados não tinha feição fiscalizadora; consubstanciavam solicitações de serviços municipais que os próprios munícipes poderiam ter feito através dos canais pertinentes.

vereador pra isso? Que pode ser feito sem burocracia e sem ficar devendo favor?

Se tanta gente persiste em colocar essas requisições simples na mão da vereança, o faz por comodismo e por ignorância estimulando uma prática inapropriada da função legislativa. Vereador que promete fazer parquinho, construir Escola Técnica, asfaltar rua, reformar e ampliar Unidade Básica de Saúde, edificar espaço cultural, dar cesta básica e por aí em diante, desrespeita seu cargo, exorbita sua função incentivando comportamentos clientelistas e patrimonialistas que sempre vitimam a democracia e a cidadania.

Eleitor incivilizado que os elege acredita que terá um facilitador para o seu dia a dia e lhe confere um poder que, lamentavelmente, poderá ser muito mal usado, deixando a defesa dos interesses do município em plano secundário, quando não, em plano algum.

Eleitor cidadão, eleitora cidadã, cobra dos vereadores e vereadoras que fiscalizem obras, fiscalizem contas, fiscalizem a aplicação do dinheiro público para que não haja malversação; pleiteia pela criação de leis municipais que melhorem e salvaguardem o funcionamento da cidade.

No entendimento do vereador Raul que fez forte coro com o de boa parte dos que tiveram paciência de assistir essa sessão incendiária, os que votaram contra os seus requerimentos se alinharam à gestão que ora governa a cidade. Porque informação solicitada por requerimento nunca é demais ainda mais quando a questão em pauta é intrincada e por isso mesmo, precisa ser melhor esclarecida.

Foi então surreal que logo eles tenham prestado homenagem por sinal muito merecida, à querida Celina Lima, pessoa reverenciada pelos artistas e artesãos da ilha e presença prestativa e sorridente da FUNDACI que, desgraçadamente, teve seu trabalho público de quase duas décadas interrompido com a sua demissão justamente por essa nova gestão. No texto que escreveu no facebook sobre essa honraria, Celina humildemente agradeceu “por fim, aos prefeitos que permitiram a continuidade até 2020”, porque o que veio depois, a despediu.

Celina Lima,criadora dum mundo caiçara em miniatura, respeitada e querida pela comunidade artística de Ilhabela, foi demitida, depois de quase duas décadas de dedicação amorosa e competente à cultura, pela gestão que a maioria dos vereadores aguerridamente apoia

Sua demissão indevida abriu um buraco na área da cultura que permanece aberto infelicitanto não Celina que, mulher valente, deu a volta por cima, mas principalmente todo mundo que admira sua dedicação e valor. Miseravelmente, inexiste na carta de serviços, serviço municipal reparador de imperícia e injustiça com capacidade de tampá-lo.

Surreal não foi que a imprensa lambe-botas estampasse matéria de vereador choroso se travestindo de injuriado nessa já antológica sessão na qual a artilharia do Raul distribuiu tiro pra tudo quando é lado, não poupando nem quem não se levantou pra votar contra, caso do vereador Felipe Gomes.

Estava certo o atirador metralhador quando disse que as pessoas não sabiam dos malfeitos porque a imprensa chapa-branca não os divulgava. Fato mais ruim do que não divulgá-los é ela se prestar a estampar informação dum lado só ou muito pior, tendenciosa feito as que ultra direitistas revanchistas municiados duma autoridade imerecida, a exemplo do presidente da Fundação Palmares, corriqueiramente fazem.

Essa manchete choradeira que circula impressa e que na sua versão virtual recebeu imediato fogo indignado de artilharia muito mais pesado do que o desferido da tribuna da câmara pelo contrariado Raul, está parecendo pra quem tem a vocação fiscalizadora tão em falta em câmaras municipais brasil pária pátria brasil, balaço no pé ao revelar inconsistência e inequívoca prova de sede de vingança.

A indignação do vereador Raul Cordeiro que ganhou corpo em sua emocionada fala na tribuna incendiando a sessão que tinha tudo pra ser mais uma das tantas esquecíveis, vocaliza a revolta dos ilhabelenses conscientes que acompanham e fiscalizam a ação da vereança e se sentem hoje, órfãos dela.

Invocar democracia, liberdade de votar como quiser, pretender enquadrar o vereador briguento por prática de racismo com a intervenção subserviente da imprensa puxa-saco e do reclamão que parece desprovido de noção, está cheirando armação, pataquada com capacidade de, ao invés de desacreditar o vereador de oposição, avalizar e reforçar o teor das suas denúncias. E dizer que o poder de todos nessa venerada casa das leis da princesa é igual é desonrar a verdade pois que a ação vexaminosa dalguns pode qualificar o poder desses com adjetivos nada republicanos.

 

as redes insociáveis se incendeiam e o cálculo político desastrado dos melindrados foi tiro no pé

 

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