foto em foco: a ilha dos cabisbaixos

a ilha dos cabisbaixos

artigo da coluna de opinião viagem pitoresca & histórica ao brasil pátria amada brasil

Márcio Pannunzio, texto & fotos

se o mundo acabar, as socialites podem vir voando pra ilha 

Não foi preciso queda de meteoro para instalar o caos em Ilhabela. Bastaram as torrenciais chuvas de março chegando antes de março. Escandalizaram os grandes noticiários, vídeos de celular flagrando o descalabro. Num deles, caçambas de caminhão descem uma rua transformada em rio de corredeiras e talvez esse filminho catástrofe venha a servir no futuro, pra nova campanha publicitária oficiosa vendendo ilha paraíso radical pros amantes de esportes adrelinados; só que ao invés de descida de caiaque, descida de caçamba. Esta sem dúvida muito maior, mais espaçosa e confortável, adaptada pra passeio como foram as camionetes quatro por quatro do caminho de castelhanos, com bancos opostos, pondo face contra face os que neles se assentam.

E falando nesses propagandistas a soldo municipal, ficaram eles infelizes a ver navios depois de efusivamente comemorarem a volta dos cruzeiros covid omicron que trariam, segundo o seu lustroso falatório, oitenta milhões de reais pro comércio de lembrancinhas, garrafinhas d’água mineral, latinhas de cerveja e translados jipeiristas pela cidade. Ficaram a ver navios, ou melhor, sem ver esses seus adorados shopping brega transatlânticos merdeadores de mar e paisagem ancorados no canal. Porque, como covidários que se tornaram, foram de pronto tirados de circulação não sem antes pipocarem pelas redes sociais queixas e mais queixas furiosas de passageiros à prestação aprisionados em quarentena nas cabines à míngua, padecendo na lembrança dos incontáveis nababescos buffets diários de comida à baciada.

Tá certo que com um volume de chuva de tamanha magnitude, com a cachoeira d’Água Branca parecendo uma das maiores quedas do Iguaçu, a coisa ia ficar ruim mesmo. Mas o que geralmente sempre acontece na ilha com qualquer chuva um pouco mais forte, é alagamento de rua. Porque em Ilhabela, uma das mais ricas cidades do Brasil, se pavimenta sem antes construir rede de galeria pluvial. E a aguaceira da chuva sem ter captação, desce por cima do leito carroçável sem permeabilidade o transformando em ribeirão. Daí é um desfile de SUVs fazendo bonito, ou melhor, fazendo onda. O que poderia se prestar para a propaganda oficial proclamar: Ilhabela, paraíso dos SUVs e montar um estande monstro desses jurássicos trambolhos na fazenda Engenho De Pouca Serventia, quer dizer, Engenho d’Água.

desestrangular pra estrangular novamente logo ali na frente a fila de carros insustentável

O belo reclame cartazista espalhado pela Princesa Isabel nos adverte que em Ilhabela há “ações responsáveis por uma ilha sustentável”. Uma delas deve ter sido a de ter eliminado área de estacionamento da Princesa Isabel no Perequê. O que vai contribuir pra dar brilho a nova engenhosa campanha propagandística “Ilhabela, paraíso en passant”; assim mesmo, no francês en passant que foi por tanto tempo a língua da elite pátria.

E se os çábios urbanistas insulares empregados na prefeitura Sauna de Cristal Matagado exercitassem mais a fundo seu brilhantíssimo saber, suprimiriam de vez como fizeram em milionária reurbanização da Cocaia, as calçadas. Aí, que beleza: fila tripla de SUVs!

Essa obra de bairro de bacana que se arrasta a passo de tartaruga desde a gestão anterior, constrói uma crônica de morte anunciada.

urbanização padrão paraíso exclusivo ilhabela: postes no meio da rua e cadê as calçadas? 

Qual seja, a do primeiro incauto pedestre sem calçada a ser atropelado e morto. A associação dos moradores cantou essa bola e também a cantaram vários cocaienses no WhatsApp. Denúncia foi feita ao Ministério Público, mas ele que em tantas oportunidades veio a campo para repor ordem na bagunça, a arquivou, de modo que a crônica da morte anunciada se fortalece; ganha musculatura tamanha que quando ela acontecer, será bem difícil a elencar como agora fazem os poderes insulares em relação às inundações e ao colapso do sistema municipal de saúde, na conta generosa da fatalidade.

Sobre esse colapso que desmantelou essa papagaiada publieditorial de Ilhabela Nova Zelândia, vem imediatamente à lembrança o pioneirismo de Ilhabela em liberar o uso de máscara ao ar livre, uso esse que já vinha sendo há muito desobedecido e em ter sido a única cidade do litoral Norte a manter celebrações esfuziantes de fim de ano com queima de fogos e show dronista na praia. Tudo isso sem efetivas medidas de barreira sanitária; passe livre na balsa e passaporte da vacina sem valor algum pois a egrégia câmara municipal terraplanista prontamente o contestou propondo lei no objetivo de o proibir. A depender dessa câmara recordista de ofertar títulos de cidadania e mérito, talvez até a vacinação contra a covid fosse proibida em Ilhabela visto que entre os vereadores há quem ache que é tudo perigosíssima experimentação da ciência, essa vilã torpe ameaçando a liberdade de nos infectarmos uns aos outros festivamente.

Essa câmara porém, não se esquivou numa sessão extraordinária e haja extraordinária nisso, logo no comecinho do ano, de elevar o salário do prefeito, o do vice e dos secretários municipais num patamar mais alto que o de cidades muito, muito maiores que Ilhabela. É que Ilhabela é uma das mais ricas cidades do Brasil e quem sabe por isso, deveria também pagar os mais altos salários do Brasil.

Ganhando esses trabalhadores públicos tão bem não espanta mais ninguém que em breve Ilhabela seja transformada radicalmente e que isso vire cantoria de música ao vivo em bar na Vila. Uma versão insular do belo fado tropical do Chico Buarque e Ruy Guerra, substituindo Brasil por Ilhabela e Portugal por Cancún equatorial, celebrando assim os esplêndidos resorts espalhados por Castelhanos, pelo Bonete, pelas costeiras todas de norte a sul, de leste a oeste. E com a sua faixa de areia voltada ao continente exponencialmente engordada às custas dos generosos royalties feita a da dubaiana Camboriú, através então de um novo e bastante comemorado ato legislativo da ilustríssima câmara das leis ilhabelense, mudar-se pois iria o nome da avenida principal. Que se afogue no mar do esquecimento a princesa boazinha que pôs fim à escravidão e venha brilhar a do ilustre marechal Castello da ditadura redentora porque aquela tão tímida via vai virar rodovia de seis pistas com largo acostamento.

ilhabelense é bonzinho: tarifa a um real

Circulando no meio dum oceano de carros, ônibus a um real. É essa a atual boa nova espalhada por outros cartazes de insular reclame governamental: a tarifa legal. Legal pra quem? Durando até o final da temporada, pra turistada sem carro por não ter dinheiro para o ter ou por opção bom mocista de auxiliar essas meritórias ações por uma ilha sustentável. Mas como a tarifa real foi também logo ajustada pra R$ 8,16, uma das mais caras do Brasil porque, afinal, não nos esqueçamos que é Ilhabela uma das mais ricas cidades brasileiras, vai sobrar pra alguém pagar essa diferença de sete reais. Que será o bonzinho morador de Ilhabela, fazendo o papel da gringa Kate Lira naquele programa de humor televisivo brasileiro é tão bonzinho.

Com tantos e singulares feitos insulares é sem dúvida certo que não se espantará o/a paciente leitor/leitora dessas extensas linhas cujo destino futuro é adormecer nalguma posta-restante, com a notícia da vinda para ilha dum quarteto que de fantástico, muito o tem. Dois dos seus participantes largaram correndo o suculento osso de federal ministérios para se esconderem da justiça. Um, o truculento e grosseirão ministro da deseducação; outro, o incendiário de friorento azul olhar do ambiente sem meios. Um terceiro fez obra por ele próprio glorificada de tornar a pátria mãe gentil, pária. O último, de garbo varonil, tem o principesco poder de pôr a perder o pouco encanto de que desfruta a família imperial brasileira, ora morando de aluguel em Higienópolis.

Esses quatro serão entrevistados presencialmente, pois que todos virão ao paraíso dos anúncios da avenida da princesa, por entrevistador que engrandece esse evento como especial nas suas bozolóides redes sociais.

o quarteto fantástico prestigia o paraíso exclusivo – captura de tela

Fosse Zé Paulo a escrever sobre esse bombástico acontecimento ilhabelense, sem economizar no seu gongórico linguajar, intitularia a história como “os quatro cavaleiros do reacionarismo apocalíptico na ilha do negacionismo”. Não se deve, contudo, aguardar no dia do inesquecível encontro, por qualquer manifestação de repúdio duma claque irada em frente ao lugar fazendo panelaço. Isso, porque os tão poucos e poucas que poderiam dela participar, optaram, muito apropriadamente, por o fazerem de maneira virtual. O que daria inspiração pra uma nova campanha arrasa avenida governista: Ilhabela, o paraíso dos em cima do muro.

Engraçadíssima é essa notícia para o genial Carlos Knapp , autor do Sumiço do Mundo – reportagem completa, que um dia ainda cumprirá a sua sina e virará série da Netflix. A realidade superou essa sua engenhosa ficção e não é mais o continente, o mundo que sumiu para Ilhabela, mas sim Ilhabela inteira que desapareceu do mundo civilizado ao eleger pastar no pestilento brejo do obscurantismo.

 

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Sobre Márcio Pannunzio

Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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One Comment on “foto em foco: a ilha dos cabisbaixos”

  1. Diante de milhares de evidências, a nível mundial, sobre as merdas de vacinas que impuseram aos otários, chamar a Câmara de terraplanista e negacionista é, no mínimo, ridículo.
    Você é a favor do passaporte sanitário?
    Sinto muito. Você é um bosta

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