foto em foco: Ilhabela precisa cuidar melhor dos vulneráveis

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“Sinto uma aflição insuportável quando imagino o que poderá acontecer com o Brasil logo mais. Apesar de contar com autoridades de saúde decentes, competentes e comprometidas, desconfio que áreas imensas da nação serão devastadas pelo novo coronavírus, que se sentirá à vontade para evoluir num país esfrangalhado pela desigualdade e pelo abandono, habitado por uma multidão de pessoas boas e resignadas, sem condições de expressar indignação ou usufruir dos seus direitos. Pior ainda, dirigidos por governantes irresponsáveis, desprovidos de compaixão e incapazes de prover dignidade à existência humana”.

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Palavras de Miguel Srougi em artigo publicado na Folha de São Paulo.

A coluna anterior teve como um dos seus pontos capitais, a ênfase na necessidade urgente das autoridades de Ilhabela atentarem para o seu dever de tomarem medidas para amparar os munícipes que, no conjunto da população, serão os mais penalizados.

Ilhabela espelha o Brasil e a desigualdade social sideral que coloca nosso país como um dos campeões mundiais, está aqui visível ao olhar de qualquer um que tenha a mente desperta e o coração aberto.

Infelizmente, as ações da prefeitura municipal e do poder legislativo insular não têm mostrado completa consciência desse fato.

Os decretos publicados no dia 20 de março tiveram, não resta dúvida, o bem-vindo mérito de implementar atitudes que efetivamente terão o poder de reforçar a prática do isolamento social no arquipélago.

Porém, sua leitura atenta não percebe qualquer menção a políticas de amparo aos moradores marginalizados economicamente que habitam as franjas da cidade, as áreas de risco, os morros, os buracos da paisagem e àqueles que mesmo não vivendo na miséria, a ela serão relegados por causa da imediata perda do seu sustento.

A distribuição de alimentos para crianças de famílias em situação de vulnerabilidade foi uma iniciativa muito acertada. Mas é preciso mais para tranquilizar e confortar a legião de carentes até porque muitos deles não foram arrolados entre os que receberão esses alimentos.

É certo que o governo estadual e o federal já se conscientizaram desse problema, mas eles têm tardado em demasia na tomada de decisões com poder de resolução.

A economista Monica De Bolle  em sua coluna de 18 de março no Estadão arrolou uma série delas que deveriam ser prontamente adotadas para mitigar a crise; a maioria focando no amparo dos brasileiros despossuídos.

O Fórum Popular de Cultura de Ilhabela encaminhou à prefeitura e à câmara municipal duas cartas elencando sugestões. A primeira, datada de 16 de março pedia especial atenção à classe artística de Ilhabela que seria severamente penalizada com a interrupção das suas atividades. A segunda tomando para si a dor dos demais ilhabelenses que seriam igualmente afligidos de imediato, data de 19 de março.

“A recessão econômica que a população de Ilhabela vai viver nos próximos meses será brutal. Por isso rogamos à Senhora Prefeita e aos Senhores Vereadores especial atenção aos munícipes que sobrevivem de empregos temporários vinculados à cultura, ao comércio, ao turismo, à construção civil e ao cuidado de moradias de veranistas e de moradores com melhor condição financeira. Eles não podem ficar desamparados. O governo federal, o estadual e várias cidades se deram conta deste sério problema social e estudam alternativas para aliviar as dificuldades financeiras dessas pessoas. Que Ilhabela se inspire nesses exemplos e busque também maneiras de amparar esses ilhabelenses que, nas suas ocupações, têm grande parcela de colaboração na construção e manutenção do município.”

 

Nas crises crescem os estadistas dizem; mas a verdade também é que nelas se apequenam além do impossível algumas pessoas.

Então há excessivo alarido oportunista em postagens, manifestos, abaixo-assinados instigando a não se pagar luz, água, internet, iptu, aluguel, cartão de crédito, empréstimo bancário, tv por assinatura e o escambau. A seguir nessa toada lunática, em breve vão se multiplicar em progressão geométrica pregadores do apocalipse incitando o povo a saquear os comércios ainda em funcionamento.

Nessa hora mais do nunca é preciso cultura, serenidade e civilidade para constatar que a pandemia que já deflagrou uma abrupta paralisia da economia, não vai fustigar os diversos estratos da população na mesma intensidade.

Em Ilhabela, o milionário infectado na Itália pelo coronavírus pode aterrissar de helicóptero com a sua entourage para cumprir a quarentena em sua mansão de veraneio na costeira.

É óbvio que isentá-lo da obrigação de pagar iptu, luz, água, etc é um absurdo.

As medidas de amparo devem socorrer quem realmente precisa e está neste momento vivenciando um sofrimento muito superior ao daqueles que conseguem ficar confinados em suas casas sem maior preocupação com a queda de sua renda.

A prefeitura tem cadastrados boa parte dos necessitados e meios de inventariar os que vão passar a essa condição nos próximos dias.

Estimuladas pela consciência da gravidade do infortúnio financeiro na ilha e com pensamento solidário, seria possível às autoridades locais sinalizar a esses munícipes expostos a um estresse terrível que terão assistência do município no sentido de lhes conceder condições dignas de sobrevivência nesse período de enormes dificuldades.

Essa informação terá o poder benigno de rapidamente dissipar a aflição que os tortura e muito mais do que as medidas policiais, conseguir assegurar o cumprimento eficiente do isolamento social.

P.S.: A coluna foto em foco é de opinião. Assim está categorizada no corpo do Nova Imprensa. Isso quer dizer que, diferentemente da matéria jornalística que se atém em relatar de maneira imparcial os acontecimentos, a foto em foco pode sim, exprimir juízos de valor ou seja, pode expressar uma opinião.
Quem tiver a paciência de a ler por inteiro não precisa concordar com essa opinião e é até saudável que haja discordância, gerando debate sadio em direção ao consenso.
O que é indesejado, deselegante, desinteligente é achincalhar sem argumentação verossímil textos que demandaram um esforço de reflexão e pesquisa.
Infelizmente isso tem acontecido com uma frequência perturbadora e fica aqui um pedido educadamente feito aos que que se aborrecem com a coluna: por gentileza, se abstenham de comentá-la contaminados pelo vírus mental do ressentimento.
O autor se reserva no direito de não responder a provocações despropositadas e a comentários agressivos.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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