foto em foco: a burrice de cantar a vitória antes do tempo

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Os humildes, os previdentes, os sensatos, os modestos, os reflexivos, os precavidos, os idôneos, os cautelosos, os comedidos…,  – eles todos -, bem sabem da impropriedade de cantar qualquer vitória, principalmente, quando antes do tempo.

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Mas vivemos numa era narcisista, de pessoas se trombando pelas ruas alheias umas às outras na fascinação estuporada, egoísta e egóica de fotografarem a si mesmas alongando e elevando o braço que segura o celular como se alegremente saudassem esse fotografar o transformando numa celebração de cantar vitória a todo instante em todo o lugar para imediatamente a compartilhar em bolhas existenciais virtuais entupidas, esturricadas e estupifidicadas de imagens todas iguais duma felicidade de araque.

Esse movimento planetário de idolatria pessoal contamina instituições e governos e eles então como gente comum ficam a papagaiar seus feitos “miraculosos”.

Um exemplo próximo e bastante ilustrativo é o de um pequeno vídeo institucional lançado em maio tratando das medidas tomadas contra o coronavírus em Ilhabela .

Uma voz feminina cantante com timbre infantil apregoa a superioridade da ilha em relação às cidades vizinhas no continente no combate à pandemia. Feito criancinha se pavoneando muito orgulhosa da superioridade dos seus papais diante dos simplórios papais de seus coleguinhas de escola.

Compara os casos de coronavírus na ilha com os das cidade vizinhas para apressadamente concluir que as medidas adotadas para controlar a pandemia na cidade foram exitosas. A principal delas foi a do fechamento da balsa. Mas implementada sem qualquer barreira sanitária que efetivamente fiscalizasse o trânsito das pessoas que continuaram atravessando para trabalhar e para trazer e levar mercadoria, resultou apenas na construção de incontáveis narrativas lacrimosas televisionadas pais inteiro de moradores e moradoras que ficaram impedidos de voltar às suas casas, às suas famílias, vivendo numa aflição interminável que só teve final quando o ministério público derrubou o decreto do fechamento no dia 23 de junho.

Acreditando piamente em sua propaganda oficial, fazendo jus à alcunha de “ilha da fantasia”, Ilhabela foi uma das pioneiras na liberação da atividade comercial no Brasil, a autorizando quase integralmente por força do decreto 8.604/2020 publicado no dia 22 de abril que prontamente atendeu à demanda barulhenta de munícipes bolsonaristas na célebre carreata dos desalmados. Vivia-se na ilusão de que ela não fazia parte do Brasil; de que ela, terra abençoada pela sabedoria dos seus mandatários, estava livre do vírus e que, portanto, a sua economia poderia sim continuar a caminhar em prol da ordem e do progresso insulares como recomendavam com alarde as vozes negacionistas no continente que encaravam a doença como uma gripezinha inofensiva, danosa somente para a velharada e os que tinham “comorbidades” – enfim, para os fracos; para os que não têm compleição atlética.

Os dados atuais da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados relativas ao coronavírus nos informam que em Ilhabela houve registro de 1.628 casos. São Sebastião teve 1.645, Caraguatatuba, 2.384 e Ubatuba que tem bem mais do que o dobro de habitantes que Ilhabela, 1.492.

O que significa que Ilhabela, apesar de toda a boa vontade, de toda a propaganda onipresente, de toda a dinheirama gasta teve desempenho medíocre nas mediadas de controle da pandemia apesar de inapropriadamente e antecipadamente ter alardeado o contrário, ficando atrás de várias cidades de população semelhante que ora exibem um número bastante menor de casos de contágio como, por exemplo, Cravinhos – 386, Aparecida – 456, Adamantina – 413, Ibaté – 376, Aguaí – 322, Presidente Venceslau – 490, Casa Branca – 469, Cachoeira Paulista – 384, Iperó – 260.

Voltando a atenção para o vídeo parlapatão, sua chave de ouro era uma fotografia mostrando um grupo de jovens banhistas correndo e pulando juntos mar adentro. A gente os vendo até pensa que possam ser uns amiguinhos e amiguinhas farreando juntos; na verdade, se atirando correndo no mar para fugirem da avidez dos borrachudos ilhabelenses; esses, realmente, verdadeiramente capazes de afugentar rapidamente os incautos que ficam meio pelados sem repelente que os proteja e nessas horas, nada melhor que mergulhar n’água imediatamente, deixando só o nariz pra fora.

Essa foto com uma luz dourada emoldurando uma composição horizontal quase panorâmica faz bonito.

Só que ela não retrata Ilhabela.

Ela foi tirada lá na Rússia em mar gelado com banhistas todos caucasianos. Por um fotógrafo também russo: Dmitry Molchanov. Posta à venda no banco de imagens Shutterstock. Foto que, por sinal, foi bastante vendida a ponto de anunciar até condomínio em Miami.

 

E aí fica a incomoda pergunta de quanta credibilidade pode ter esse vídeo que se pretendia informativo manipulando informação a ponto de nos querer fazer acreditar que era de Ilhabela a praia dessa foto que fazia o seu grande final. Não causa surpresa que os números de contaminados na ilha sejam maiores do que os de tantas cidades paulistas com população superior e uma receita muitíssimo menor que a da ilha.

Pode haver quem objete que o governo federal usou do mesmo expediente na divulgação do programa pró-brasil lançado em 22 de abril, coincidentemente  no mesmo dia da publicação do decreto municipal 8.064/2020 flexibilizando o isolamento social em Ilhabela.

Na época o fato foi prontamente percebido e divulgado pela imprensa. Jornalistas denunciaram o caráter racista da peça publicitária que exibia uma foto de banco de imagem somente com crianças branquinhas de olhos claros, cabelo liso, loirinhas para ilustrar uma nação onde mais da metade da população é negra. Por isso, longe de normalizar a atitude dos publicitários ilhabelenses, esse argumento tacanho o detona completamente. Porque dessa instância superior de governo infestada de moralistas reacionários, antidemocráticos, autoritários, rancorosos, violentos, arbitrários, anti-iluministas, anticientíficos, antiambientalistas, contrários à cultura, à arte e à justiça, desrespeitadores das minorias, insensíveis à promoção da igualdade, genocidas por conquistarem o segundo lugar no macabro podium dos países com maior número de mortos pelo coronavírus, desejosos de levar toda a oposição à ponta da praia e sempre se batendo enérgicos pela defesa da sua liberdade de destruírem a cultura, a ciência, a segurança, a saúde, a economia, a diplomacia nacional, a reputação das forças armadas, a civilidade e a própria natureza brasileira literalmente a queimando tornando o Brasil um dos mais célebres párias internacionais é impossível se esperar exemplo virtuoso ou, minimamente digno de nota; haja vista o mais recente deles prestado por liderança sua que era também membro de comissão de ética e vivia uma “quase união estável” com Bolsonaro, levando a corrupção a um patamar estratosférico e escatológico ao merdear o dinheiro que tentou esconder da polícia federal na bunda.

Embora essa foto russa congelando beldades e mancebos todos branquelos no pulo, saltando mais por causa da frialdade d’água próxima do Ártico do que por estarem felizes juntos nada tenha a ver com Ilhabela, é ela a expressão de um desejo.

O de que as praias do arquipélago fossem desde sempre frequentadas por essa juventude de magazine de moda com esse europeu padrão de beleza acompanhado por moeda forte e pela compulsão de gastar sem perguntar valor.

São eles os visitantes bem-vindos pela política municipal de turismo reverberando a voz de alguns empresários vistos como o sal da terra, motores da economia de Ilhabela.

A eles não agrada ver em frente aos seus comércios construídos sobre antigas posses de caiçaras, turistas farofeiros.

Porque são diferentes demais desses seres dourados da fotografia chavão de belo efeito. Chegam molambentos carregando cadeiras, geladeiras, tendas, fazendo na concepção preconceituosa e desumana deles, feio em frente aos seus negócios que vendem Ilhabela como lugar de elite rica branca culta.

Muitos moradores da cidade tomam as dores dessa porção de hoteleiros, donos de boteco, donos de restaurante, donos dalgum estabelecimento que se pretende de clientela refinada e passam a olhar esses banhistas com pouco dinheiro que colore as praias de Ilhabela com desdém, com nojo, com repulsa. E assim se alimenta uma xenofobia muito particular que se volta contra os que não se aparentam com o figurino do turista de “qualidade”. Parcela expressiva desses xenófobos de pobre transformou suas casas em meio de hospedagem patrocinada pelo airbnb, pelo booking e desses dois gigantes se fez escrava. E ainda que abomine o turista sem finesse, não se melindra de alugar seu lar para vândalos que com fragor importunam sua vizinhança.

Se as barracas capengas, os guarda-sóis bregas dessa “turistada de carga” – expressão sem tradução no google muito em uso pelos turismólogos da prefeitura ofendem e são indesejadas, há outras tendas que mesmo precárias, são bem-vistas, são legalizadas apesar de enfearem o espaço urbano e por o deteriorar, desagradarem não só o turista branco rico culto mas qualquer pessoa de olhar afinado.

Exemplo dessas tendas desastradas e desastrosas são as que encapsularam o centro cultural da vila para acolher com indigência, desconforto e desrespeito o artesanato da cidade. Artesanato que merecia um espaço só seu, uma galeria à sua altura e importância e não um monte de puxadinhos feitos na base do improviso, na precariedade de tendas que podem fazer bonito em feira livre e em camping. No espaço urbano planejado com carinho, show e evento acontece com qualidade e conforto em centro de convenções ou teatro; exposição em galeria ou museu.

No Guarujá existe há mais de vinte cinco anos uma feira de artesanato de produtores da cidade numa galeria especialmente projetada e construída para abrigar dezenas de estandes confortáveis e esse prédio nas Pitangueiras, por sua planta bem feita e localização, tornou-se um dos pontos turísticos mais visitados do balneário.

De tanto ocultarem o centro cultural, essas tendas dum branco sujo e quentura de fritura o assassinaram. Logo ele que quis sediar um museu e um cinema. Mas construído às pressas e nas coxas, não sediou direito nem um nem outro. O cinema fechou depois de inaugurado com pompa e o museu por tão mambembe nem merece ser assim nomeado.

Waldemar Belisário que é seu nome é nome de um artista de carreira amargurada. No final da década de vinte sua trajetória artística e suas tratativas com os poderosos da época o levariam a viver na Europa para estudar às custas de bolsa do governo, como fizeram antes outros artistas que depois se consagraram. Mas deu tudo errado. Houve a quebra da bolsa de Nova York provocando uma crise financeira mundial que pôs fim ao sonho do Prêmio de Viagem ao Exterior; houve o escândalo do seu casamento arranjado com Pagu ser desmascarado e seu mundo ruiu. Foi visto com traidor pela família de Estanislau do Amaral, da oligarquia cafeeira que o tinha na condição de agregado, vivendo de favor. Belisário, artista muito pobre, chegou a trabalhar posando de modelo vivo para artistas filhinhos/ filhinhas de papai rico nas aulas do pintor e professor Georg Fisher Elpons que, ao perceber o talento do jovem, ensinou-o gratuitamente por um ano e meio. Belisário limpava os pincéis de pintura que Tarsila do Amaral sujava. Essa, todo mundo conhece de tanto fazer selfie em frente a quadro dela no masp.

Deprimido pela quebra da sua ascensão profissional e pelo desprezo dos Amaral, veio se esconder em Ilhabela na praia de Castelhanos. Onde conheceu Celina Cerqueira Leite Guimarães, jovem professora que foi o amor da sua vida.
O casal morou em São Paulo por muitos anos. Waldemar Belisário fez em idade avançada uma individual histórica no mesmo masp que há pouco mostrou Tarsila.
E antes voltou para Ilhabela. Comprou um terreno no Perequê e construiu com suas próprias mãos uma casa e atelier modestos.

Como artista que retratou virtuosamente a paisagem de Ilhabela, sua gente, seus costumes, tinha pleno direito que sua simplória moradia fosse preservada como um marco da sua presença na cidade que tanto amou.

Mas um supermercado a engoliu, a demoliu e dela não resta mais vestígio algum.

No final de sua vida Waldemar ainda precisou enfrentar o preconceito de parte da classe artística de Ilhabela da década de setenta que encarava o pintor como acadêmico. O que era uma inverdade e por isso todos acabaram concordando em mudar o nome do salão de artes que acontecia na ilha como um derradeiro tributo à sua memória, após a sua morte. O Salão de Artes Plásticas Waldemar Belisário iniciado em 1.983, é um dos mais longevos do país e não aconteceu esse ano sob a desculpa da pandemia. Isso, apesar de outros salões pelo país inteiro terem continuado, abraçando o formato virtual.

Uma outra casa bastante modesta fica próxima a que foi do Belisário. É uma autêntica casa caiçara, moradia de pessoas simples que preserva boa parte da sua originalidade. É uma raridade numa cidade que só fez destruir seu patrimônio histórico para construir por cima desatinos arquitetônicos, caixotões de alvenaria que nada ficam atrás do pior da arquitetura stalinista. É uma delicada pérola no coração do Perequê, na esquina da Avenida Princesa Isabel com a Avenida Coronel José Vicente de Faria Lima.

Mas quem passa por ali hoje não a vê. Ela foi mais que encapsulada; ela foi inteiramente escondida por outdoors de candidatos para a eleição municipal de novembro. Todos muito bonitos e bonitas na foto de fotógrafos que entendem do babado de fazer foto seguindo a cartilha da publicidade eleitoral que pasteuriza os rostos mais desiguais os transformando por mérito de equipamento fotográfico de ponta e de programas de edição de imagem em rostos legais, rostos de gente do bem. Eles e elas nos brindam com sorrisos escancarados, olhos brilhantes e gesticulação teatral.

Apazigua a alma atormentada pela ruína da vida de agora que não fazem o gesto da “arminha”. Fazem um gesto de positivo, bastante nítido, porque nessas fotos nitidez é fundamental.

Esse positivo com o dedão tão visível e grande atordoa a vista e é como se eles e elas na verdade estivessem segurando um detonador, prestes a apertar seu botão implodindo a linda casinha por detrás.

O que, ao a emparedarem com seus olhares varonis e sedutores e seus sorrisos de pasta de dente, já fizeram.

E fazem moradores de Ilhabela de tudo quando é bairro, transformar suas calçadas e a dos seus vizinhos em berço do descarte das suas imundícies, das suas tranqueiras quebradas e inúteis como se fosse esse local um aterro sanitário orbitando outra realidade que não a do visceral emporcalhamento da cidade que em temporada passada teve quase todas as suas praias poluídas.

Alguns desses ilhabelenses ficaram de cabelo em pé ao receberem uma carta oficial de cobrança intimidante e essa mesma carta pode ser endereçada para muitos mais. Todos aqueles que receberam o “personal alimentation tabajara insular card” juntamente com o auxilio emergencial do governo federal. É ilícito acumular os dois. Desgraçadamente, os responsáveis pela concessão do cartão elencado como feito virtuoso não avaliaram direito as solicitações e a aprovaram até para empresário/ empresária motor da economia/ luz do mundo com patrimônio e reserva financeira mais do que suficiente para atravessar com folga qualquer época de vacas magras.

Retomando novamente o foco. A arquitetura de uma cidade nos conta quem é seu povo e nos ajuda a entender as suas escolhas.

A câmara municipal de Ilhabela tomou para o si um palácio de princesa. Fincou na sua entrada uma pavorosa estátua colérica para afugentar os curiosos. Encheu-o de salinhas burocráticas num labirinto de Minotauro e fez um plenário aquário de vidro que fica às moscas quase todo o tempo.

A prefeitura construiu para si um portento que poderia figurar com brilhantismo como exemplo de aberração construtiva: o palácio sauna de cristal matagado. Nas suas tortuosas entranhas, o gabinete do prefeito é maior do que o museu Waldemar Belisário que exibe, quando muito, nem um mísero milésimo da sua obra.

O prédio que abriga o poder judiciário seguiu um projeto padronizado sem se preocupar com o entorno onde se edificou e longe de embelezar a avenida, faz Ilhabela lembrar de Patópolis porque parece a caixa forte do tio Patinhas.

E sobrevive o prédio maior da cultura de Ilhabela tendo como vizinho próximo o casarão da fazenda Engenho d’Água onde Waldemar Belisário foi fotografado o retratando em tela para a posteridade. Fazenda comprada por dezenas de milhões pelo município para permanecer fechada; seus jardins interditados para o passeio público.

Sobrevive esse prédio maior da cultura de Ilhabela como sobreviveram ruínas de edifícios bombardeados nas cidades europeias transformados em monumentos para que as pessoas jamais se esqueçam do horror da guerra.

E qual é esse emblemático prédio?

Na verdade, não é sequer um prédio. É a ruína de um teatro que custou mais de dois milhões de reais  e nunca encenou peça alguma e apenas abriga mato alto, pixações e indigentes.

Uma muralha de alumínio tenta escondê-la mas sem o êxito que teve essa opulenta propaganda eleitoral que, involuntariamente revela muito da natureza desses que pleiteiam o poder e que apagou do centro da cidade sua derradeira casa caiçara.

As ruínas do que deveria ser o teatro municipal se alteiam sobre essa muralha brilhosa que o cerca causando uma enorme tristeza e uma vergonha sem tamanho.

A verdadeira Ilhabela é essa aí dessas ruínas a céu aberto e faria estardalhaço desses de ocupar grande espaço na mídia atraindo bastante turista para a ilha, se um dia esse teatro de destroços virasse o “museu da corrupção” como deseja o engenheiro civil Anselmo Tambellini,  candidato a prefeito pela coligação Ilhabela sem medo.

Mas apesar de relatórios do Tribunal de Contas apontarem incontáveis mal feitos de diferentes gestões municipais, a corrupção em Ilhabela não foi nunca solidamente provada e penalizada a ponto de virar notícia nacional, com vídeos dos malfeitores sendo presos e mantidos presos como foi o Sérgio Cabral no Rio.

Muita gente, de diferentes classes sociais e idade abraçou com fervor religioso essa cruzada contra a corrupção governamental para em julgamento sumário, linchar a esquerda brasileira como se ela fosse a única responsável, recusando perceber por desconhecimento ou má fé, a longevidade e a complexidade desse problema que acontece até em países de primeiro mundo.

Sem dúvida a corrupção é dos um dos fortes motivos do mau gerenciamento das cidades e tornou-se fato banal no Brasil desde a sua fundação como colônia portuguesa a relação espúria entre o administrador público corrupto e o empresário/ prestador de serviços corruptor para o governo corrompido. Os dois atores dessa relação imoral se beneficiam: o primeiro, fazendo fortuna que lhe permite encastelar-se no poder financiando campanhas políticas milionárias para iludir o eleitorado e o segundo, fazendo fortuna igualmente por ganhar uma quantia de dinheiro absurda por serviço ou material vendido, boa parte das vezes, de péssima qualidade.

Todavia, é necessário perceber que a corrupção nos municípios sozinha não explica porque as coisas dão tão errado. A conta precisa ser imputada também e com rigor, à mediocridade da gestão pública de mentalidade exclusivamente obreira de construir prédio e repartição nova de montão, trocar broquete de concreto por asfalto, quando não, por um broquete diferente, alargar rua para afogar ainda mais o trânsito lá na frente, desapropriar imóvel e mais imóvel para deixá-los com pouca ou mesmo sem serventia nenhuma, fazer obra e obra de construção civil para ter de refazê-las logo depois por causa dos seus defeitos de projeto e execução, adquirir frota de veículos super dimensionada, comprar equipamentos caros para escritório, para a saúde e escolas que por falta de uso vão virar sucata, aumentar em demasia o número de funcionários públicos municipais encastelando regalias e privilégios; enfim, gastar preferencialmente nas coisas visíveis relegando as invisíveis, o campo da educação e o da cultura, ao papel de irrelevantes quando são essas duas as que podem realmente fazer toda a diferença.

Por ser uma das mais ricas cidades do Brasil, Ilhabela poderia figurar tranquilamente entre as campeãs de melhor qualidade de vida do país e assim seus moradores e visitantes teriam motivos de sobra para viver a alegria atabalhoada dos banhistas russos da fotografia vendida na Shutterstock.

É um desastre que não figure.

A verdadeira Ilhabela é uma cidade que, ao exibir publicamente o inequívoco fracasso da sua política cultural, estimula a ignorância de sua sociedade abençoada por receita municipal bilionária. E essa ignorância por sua vez, ao consagrar a incapacidade da sociedade ilhabelense de ajuizar criticamente a sua bizarra realidade, justifica o fato infeliz de passar em branco a surpreendente burrice dos seus gestores de retratar Ilhabela através duma foto de Dmitry Molchanov de caucasianos histéricos nos confins da Rússia.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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