foto em foco: a ilha caramujo

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Como tocar a vida se nós todos tanto a arruinamos em tempo recorde? Como tocar para frente se para trás caímos numa vertigem alucinada?

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A nação inteira que, como pária é hoje enxergada entre as demais, se fez amante do esgoto; apaixonou-se pelo retrocesso civilizatório e colhe os louros da sua demência; ao invés de festejar a vida, festejamos a morte.

Mas quem se importa?

Decretamos todos que a pandemia acabou e pelas ruas caminhamos faceiros máscara no queixo ou pendurada balançado na orelha; quando não e para muito sempre, esquecida nalgum bolso da calça ou camisa.
Trigueiros nos bronzeamos na areia enquanto nos embriagamos nos acotovelando no botequim da praia já que tantos há para nos prontamente servir em nome da preservação da economia nacional e, ora pois, da insular também.
Então Ilhabela recupera a sua normalidade. Ninguém mais precisa sair em carreata histérica clamando pela defesa da economia em detrimento da vida pelas ruas congestionadas de tamanho trânsito; os comércios de todos os tipos madrugam escancarados feito bocarras ávidas de devorar qualquer clientela que lhe passe rente não mais se importando se ela é de doutor ou de sim senhor seu doutor.

E falando em doutor, foi da pena de um senhor doutor bacharel de direito, que saiu uma impactante análise sobre o complexo problema que aflige Ilhabela com o surpreendente diagnóstico da sua causa: a infestação de caramujos.
Sim. São os caramujos os responsáveis pela desgraceira que nós ilhabelenses vivemos. Sorrateiramente eles se esparramam pelos buracos, pelas grotas, pelas pirambeiras sem eira nem beira numa operação que os senhores doutores ( cidadão não, engenheiro civil, formado, melhor do que você! ) engenheiros rotulam de “ocupação desordenada”.
E qual vem a ser a desgraceira de Ilhabela?

A vagabundagem.

Porque essa gente caramujo no entendimento da redação do senhor doutor advogado é tudo vagabundo; bando desnaturado de aproveitadores que vindo dos mais miseráveis rincões do nosso verdejante ( por enquanto porque com as queimadas campeando feito boiada passando à larga não se sabe até quando ) brasil pátria amada brasil para se locupletarem com a farta dinheirama da Ilhabela carinho com a nossa gente.

Oxalá fosse isso verdade!

E falando em Oxalá, é justamente o caramujo ou ìgbín, um dos seus principais símbolos. Sua sabedoria em se proteger da adversidade, do perigo, se recolhendo dentro da sua concha é admirada e fosse ela obedecida diante do coronavírus e não estaríamos vivendo o suplício de nos equilibrarmos nesse patamar funéreo de mil mortes todos os dias.

Essa gente que à noite se esconde da vista do senhor doutor patrono nos cafundós da ilha, em habitações precárias e por vezes insalubres está agora toda ela bem à vista, capinando o mato, limpando as ruas e as praias, construindo palácios para senhor doutor e senhora doutora, servindo diligente e invisível ao olhar dos que muito têm nos mais variados empregos que não são emprego de doutor ou de doutora.

Quem sabe existam vários dessa estirpe em serviço na casa do senhor doutor padroeiro articulista da por dentro do Baepi: rastelando seu jardim, limpando sua piscina, lavando sua louça e roupa, arrumando sua cama, higienizando sua latrina, zelando pela segurança dos seus filhos futuros doutores.

Mas se essa gente, em geral negra, morena, mulata, mestiça, indígena, cafuza, silvícola, quilombola, bugre, caiçara e outras mais que desde os primórdios da nossa amarelada ( de vergonha? ) brasil pátria amada brasil se acostumou à força da palmatória, da chibata, do pelourinho, do cassetete e do pau de arara a responder sim senhor seu doutor está aí nas ruas de Ilhabela trabalhando de sol a sol e até madrugada adentro, não é ela nem vagabunda e muito menos caramujo.

E disso prontamente concluímos, data vênia excelentíssimo senhor doutor paladino colaborador da por dentro do Baepi, que o seu mui sapiente jurídico saber desafortunadamente de nada lhe serviu na construção da sua polêmica elucubração.

Diante de reações de repúdio ao seu pensamento, entre elas a assertiva fala à razão do Kenner Neiva, precisou o senhor doutor padrinho se recolher à segurança da sua concha de caramujo para depois, em grande estilo, ressurgir assinando nova bombástica matéria na mesma por dentro do Baepi encimada por frase escrita no berro, em letras capitais: PARABÉNS POR RECONHECER O ERRO E PEDIR DESCULPAS. Sem todavia abrigar em sua página repleta de colaborações, logo o artigo dito errado, pois que foi ele pela por dentro do Baepi instantaneamente apagado.

Entretanto, essa ação descurada de apagamento jornalístico tão ao gosto comunista soviético que meios de informação tidos por responsáveis nunca a fariam, não impediu que essas desculpas desacompanhadas do mau ato que as engendrou fossem imediatamente aceitas pela patuleia senhora doutora, efusivamente. E mais que efusivamente, na realidade, entusiasticamente, externou essa douta malta seu apreço ao senhor doutor defensor panfletista desse ilhéu portal noticioso a ponto de, figuradamente, o carregar em júbilo nessa arena sanguinária que é a página inicial do facebook.

(…) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Versos de Carlos Drumond de Andrade.

Pois se de todo o acima exposto fica um pouco, esse pouco talvez sirva para inspirar novo slogan aos sabichões da publicidade institucional ilhabelense a soldo do turismo predatório a qualquer preço animando seguro infortúnio futuro, seja ele a praia bosteada, o prefeito cassado, o morro desabado, o teatro inacabado, o jardim dos horrores à beira mar, a torre da Cocaia fincada feito estaca no coração do Morro do Espinho, os aquabus apodrecendo, a fazenda de cartão postal embolorando como emboloraram tantos outros imóveis desapropriados, a invasão nas áreas de risco, eventos midiáticos milionários para doutor e doutora se regalarem, projetos de revitalizar bairro trocando seis por meia dúzia e por aí despencamos vertiginosamente costeira abaixo mergulhando em mar merdeado. De onde sem fôlego talvez vislumbremos no alto bandeirolas da revista caras tremulando ao vento.

“Ilhabela, a ilha dos caramujos”. “Ilhabela, a ilha caramujo”.

Podem fazer bonito ao lado dos bordões antigos.

P.S.: foi inserido no texto um link para um muito oportuno artigo de Eliane Brum abordando em profundidade essa mania de muitos médicos e advogados se tratarem e exigirem ser tratados como “doutores” ainda que não tenham passado do bacharelado e não tenham vida acadêmica. Essa atitude, infelizmente, pior que mania, desnuda a absurda, a cruel desigualdade que nos separa e divide. Quem deseja que os outros “fiquem com Deus”, por ser religioso, por temer o inferno e assim se esforçar por abraçar a prática da bondade, jamais deveria tratar seu semelhante com desrespeito, petulância, prepotência ao obrigá-lo a usar esse cerimonioso título da época do caquético império de Dom Pedro I quando lhe dirigir palavra.
Essa forma de tratamento hierárquico que só encontra respaldo em nosso cotidiano azulado ( de frialdade de gelar coração ) brasil pátria amada brasil é ele sim, literalmente, uma praga.

O texto do senhor doutor patrocinador que inspirou esta coluna, apesar de ter sido removido da por dentro do Baepi, segue pujante na lembrança dos que o leram e se incomodaram e nos hds, cartões de memória e assemelhados daqueles que o copiaram e o guardaram. Se os internautas escritores se conscientizassem de que tudo o que é na internet postado sobrevive ainda que depois de removido por ter sido antes salvo por outrem, e que portanto, pode novamente feito morto-vivo à rede voltar em postagem alheia num moto-contínuo, haveriam, é certo, de pensar não duas, mas três, quatro, cinco vezes antes de apertarem a tecla enter.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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