foto em foco: a ilha te recebe de braços abertos?

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Um dos inúmeros prospectos turísticos de Ilhabela enaltecendo a cordialidade local, mostra um homem de costas com os braços levantados em júbilo, como se pretendesse abraçar a paisagem idílica aos seus pés, numa foto com os dizeres: “a Ilha te recebe de braços abertos”. Rodado em larga tiragem, o folheto se espalhou pela cidade a ponto de ser encontrado em grande volume jogado no lixo.

Ao olharmos essa foto logo percebemos que ela não expressa uma situação real porque é uma montagem de photoshop; o personagem foi sobreposto na foto da paisagem. Personagem porque ele também não é uma pessoa autêntica que estava naquele lugar, mas sim um modelo fotográfico presente aos montes nessas fotos à venda em banco de imagem numa postura que louva, que se encanta por algum treco que lhe querem vender. A praia de fundo parece ser a de castelhanos, mas diante dessa montagem grosseira a gente pode desconfiar que nem ela seja, mas outra, pinçada juntamente com o deslumbrado ator no mesmo comércio de fotografia para publicidade.

A ideia é que a ilha recebe esse sujeito de braços abertos do jeito que ele escancara vigorosamente os seus, maravilhado pelo que vê, como se desejasse que mais que braços, fossem eles asas para que pudesse voar sobre a paisagem de sonho. Ele é moreno, se veste com simplicidade; não enverga roupa de grife usualmente ostentada pelos endinheirados. Ele é anônimo e simplório. Esconde a cabeça sob um chapéu de palha modesto e carrega nas costas uma enorme mochila; ela, também, bastante comum, sem qualquer detalhe que possa evidenciar uma origem de luxo. Muito ao contrário, é acessório de trabalhador, de operário.

O que vai dentro dessa mochila tão volumosa? Repelente, com certeza quase absoluta, se a praia sobre a qual sua imagem foi plantada for mesmo castelhanos. Mas podemos imaginar muita coisa mais: água, cachaça, cerveja sem gelo, marmita de frango com farofa, calção de banho, aparelho de som portátil, toalha, um papel com o horário da volta do ônibus fretado que veio do ABC…

Pois veja só, esse homem moreno, dulcificado na propaganda institucional é justamente o turista de um dia. Desses que boa parte do comércio ilhabelense deplora e quer ver longe de si. Desses que uma quantidade expressiva moradores preconceituosos odeia proclamando que merdeiam as praias. Desses que funcionários da Secretaria de Turismo de Ilhabela consideram não trazer benefício algum para o município porque praticam “lazer não turismo”. “Lazer é direto de todo cidadão e turismo é mercado; consome quem pode e quer” foram as palavras da Secretária de Turismo de Ilhabela ao jornalista e fotógrafo Reginaldo Pupo em matéria publicada na Folha de São Paulo.

Ao afirmar que consome quem pode, a mensagem é a do impedimento à ilha para esses brasileiros. Já tão marginalizados numa sociedade com desigualdade social gravíssima que os deixa sem condições de ascender socialmente, não podem fazer turismo em Ilhabela no entendimento dessa autoridade que fala em nome da administração municipal.

Mas turismo, – não lazer, é o que eles fazem de forma sacrificada e desconfortável ao se deslocarem da grande São Paulo de madrugada para chegarem em São Sebastião cedinho, atravessarem a pé para a ilha e aqui passarem o dia, retornando noite alta para suas casas distantes. E pagam por isso um preço que pesa no seu orçamento modesto. Não espanta que não comprem nada no comércio praiano.

Quem em sã consciência paga vinte reais por uma garrafa de cerveja que pode ser comprada em qualquer mercadinho por uma diminuta fração disso? Quem paga por uma porção de isca de merluza ou camarão sete barbas miúdo frito em óleo de soja requentado e servido em bandeja minúscula de papel que sequer é pescado no mar daqui, um valor que compraria um robalo de cinco quilos em feira livre? Será que esses moradores tão indignados pagam? Não espanta que mesmo eles frequentem as praias da ilha carregando sua própria cerveja e lanches.

E quem merdeia as praias da ilha? Não são esses pobres turistas de periferia ou favela na visão maldosa desses ilhabelenses, mas quem reside no município. É a merda cotidiana dos habitantes que emporcalha as praias e o mar porque nessa cidade bilionária como bem o disse o Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, finalmente falando algo acertado, não há saneamento básico.

O dinheiro que poderia ter sido gasto criando uma rede de esgoto extensa o suficiente para dar ampla cobertura com eficientes estações de tratamento foi desperdiçado em construir a peso de ouro prédios públicos porcaria sendo o maioral deles o “Palácio Labirinto Sauna de Cristal” que abriga precisamente a Prefeitura Municipal, em incontáveis desapropriações de imóveis milionárias, em obras onerosas por todos os lados e tão indigentes que logo após inauguradas já demandam conserto urgente, na terceirização de serviços públicos regiamente remunerada, em shows rapidamente esquecíveis de famosos e famosas da ocasião com cachê invariavelmente proporcional a sua mediocridade, em concurso caríssimo de Miss Brasil, em eventos e mais eventos a custar os olhos da cara para “atrair turista” e que atraem é muita mosca às tontas, em contratos e mais contratos firmados sob a benção da inexigibilidade de licitação, no aluguel de centenas de milhares de reais de estátua em área pública, em Centro de Convenções e Teatro Municipal apodrecendo como monumento maior de má gestão e desperdício de dinheiro publico, em ônibus aquáticos que nunca navegaram, em aumentar demasiadamente o número de servidores públicos a ponto da folha de pagamento comprometer parte expressiva da receita fora dos royalties do petróleo, em criar e imprimir milhares de folders turísticos que falecem no lixo buscando chamar a atenção logo do turista que não querem…

Quem tiver paciência e estômago forte, que leia o relatório do Tribunal de Contas sobre as finanças de 2017 e de 2018 de Ilhabela. Os anos anteriores e o ano posterior não fizeram muito diferente; as mesmas práticas espúrias se consolidaram gestão após gestão, seguindo sempre esse deplorável roteiro abraçado com ardor religioso por políticos do município de tudo quanto é partido e pelos barnabés a seu serviço.

Esse turista de um dia desprezado por ilhabelenses que a eles se referem como farofeiros, porcalhões, pobraiada, trambiqueiros, bregas, cafonas e adjetivos depreciativos ladeira abaixo é o mesmo turista que autoridades insulares dizem não ter a desejada “capacidade de carga” para o turismo na ilha. À primeira vista, parece pois que essa “capacidade” diz respeito a poder econômico, classe social, nível cultural, projeção midiática.

Os mandatários da cidade e os técnicos turísticos por eles contratados acreditam que ajuda a aumentá-la, financiar com o dinheiro farto dos royalties a transformação de espaço público em showroom de estátuas para o gosto de devotos de conflitantes seitas fora os ateus, concurso de miss transmitido pela TV, exposição endeusando “a beleza na escultura de Michelangelo”, apresentações musicais de matizes muito variados ( mpb, jazz, goospel, clássica, etc ), competições esportivas que cobram inscrição dos participantes, boat show, semana de vela, acontecimentos gastronômicos chiques, participação em feiras internacionais de turismo, montar tenda e mais tenda de evento pelo município inteiro…

Autoridades diversas posam para a lente de fotógrafos sociais celebrando a vinda da “Ilha de Caras” pelo segundo ano consecutivo para Ilhabela felizes com o trânsito de celebridades no arquipélago colaborando para potencializar essa “capacidade de carga” do turismo local ao ressaltar que a ilha é vip, é top, é luxo, é tudo.

Essa expressão aglutina dois substantivos que mensuram coisas diferentes relacionadas a peso, eletricidade. E a pecuária. Traz a recordação das baias, piquetes, cercados, corredores por onde o gado se desloca disciplinado em direção à ordenha ou à matança.

Na temporada de cruzeiros, estruturas parecidas são montadas na vila para evitar que seja caótico o desembarque dos passageiros. E oferecem um espetáculo bizarro: centenas de pessoas se acotovelando num calor tórrido sob tendas de lona, aprisionados em cercados de alumínio numa constrangedora situação que pouco fica a dever ao desembarque dos prisioneiros para adentrar nos campos de concentração nazistas.

Essa vem a ser umas das primeiras das mil maravilhas apregoadas pela propaganda oficial: a experiência de ser tratado como gado, como bicho gordo e grande com a serventia de fazer leite, couro ou ser comido ou então ser tratado feito condenado ao inferno.
Após passarem por esse suplício, eles se derramam aos milhares pela Vila e lotam as praias próximas. Algumas das fotos da coluna os retratam e são a imagem de um acontecimento sem montagem.

É uma multidão se digladiando por um espaço na areia e um espaço num mar repleto de embarcações de recreio despejando n’água, elas  igualmente como os residentes, merda e urina com o acréscimo do óleo diesel e da gasolina. Talvez uma outra das mil maravilhas venha a ser esse cheiro nauseante de merda, gasolina e óleo que juntamente com o suor de tantos corpos empesteia o ar sem brisa que o espante.

Apesar dessa gente fazer turismo de um dia, autoridade municipal alguma levanta a voz contra a sua presença. Na verdade, são incensados, idolatrados como se fossem a salvação da lavoura. Justificaria essa atitude brilharem na imprensa ilhéu chapa branca artigos amplamente difundidos nas redes sociais berrando que a temporada de cruzeiros vai injetar milhões, passando da centena na economia da cidade. Que cada um desses turistas de um dia vai gastar mais de quinhentos reais na ilha.

Mas não dá para engolir essa história. E se há quem a engula, concluímos que além da perda da educação, da compostura, do respeito ao próximo, perdida foi a sanidade.

Esses turistas de cruzeiro não diferem tanto desses que chegam em ônibus decrépito de periferia; muitos deles até carregam mochila igualzinha ao da foto montada da propaganda.

A verdade sem montagem é que boa parte dos passageiros desses cruzeiros é de pessoas com baixo poder aquisitivo. Compram suas viagens aproveitando preços promocionais para pagar em parcelas a perder de vista e assim muito economizam: deslocamento, hotel e restaurante. Os comerciantes ilhabelenses não vão hospedá-las nem vão alimentá-las já que há farta alimentação a bordo. Podem, contudo, vender garrafinhas d’água, latinhas de cerveja, lembrancinhas baratas de Ilhabela e passeios de jipe.

Pois então, disso se deduz que a tão proclamada “capacidade de carga” a tal se resume: comprar lembrancinha, latinha de cerveja, garrafinha d’água e passeio de jipe.

Poderíamos rir disso. Mas esse riso será amarelo porque nesse momento de enorme retrocesso civilizatório, é triste, é decepcionante, é revoltante perceber que tanto no nível nacional quanto no local, caímos num buraco sem fundo.

Quem professa fé iluminista diz que as praias são todas públicas e que, portanto, os turistas que chegam de ônibus têm todo o direito de usá-las. Que existe lei normatizando esse fato, a 7.661/1988.

Só que a realidade sem montagem é outra.

A maioria das praias de Ilhabela virou prolongamento dos comércios que delas se apossaram com o pleno consentimento do poder público. Os restaurantes, os bares, as pousadas e hotéis as tornaram seus quintais privilegiados e aqui, a palavra privilégio se encaixa como luva.

O exemplo mais bem acabado é o da praia do curral. Quem a visita sabe que se sujeita a uma corrida de obstáculos entre a tranqueira montada pelos comerciantes do lugar, que ajeitam o espaço que a todos pertence, turistas pobres incluídos, como mais que seu quintal, fosse ele a sua sala de estar. E ai do incauto que ali se sentar ou deitar sem nada consumir; um segurança particular imediatamente aparecerá e com a truculência habitual o mandará embora.

Além disso, cada uma dessas “salas” roda sua própria trilha sonora e disso resulta, que quem pela praia caminha precisa ter ouvidos surdos para não endoidar por causa da gritaria alucinada que reverbera o dia inteiro. Uma torre de babel tropical, onde se mistura funk, bossa nova, pagode, samba, sertanejo universitário e por aí vai que a lista nunca acaba como aquela anterior de mal feitos das administrações municipais passadas e da presente.

Fotos até a década de oitenta da praia do curral a exibem em sua plenitude. Livre dessa bagulhada toda que dela se apoderou e a poluiu; ela era maravilhosa, não resta qualquer dúvida.

Hoje ela se tornou a aberração que a propaganda das cervejarias martela o verão inteiro na TV como modelo de felicidade terrena, no desejo de tornar o país uma nação alcoolizada e imbecil, cheia de homens bêbados cretinos sarados e sorridentes mulheres bêbadas gostosas no padrão peitão bundão idiota.

Talvez um dia, no futuro, se futuro houver antes que uma catástrofe climática aniquile a humanidade inteira, as pessoas olhem para a Ilhabela de agora com horror sem conseguir entender como tanta gente posava de vip se embriagando, se ensurdecendo, se entupindo de comida indigesta, se torrando no sol do meio dia, desavergonhadamente urinando no mar, aglomerada em suas praias transformadas em gigantescos botecos a céu aberto onde as pessoas pobres não eram bem-vindas. Nessa hora, vão fazer bonito as fotos que sobreviverem da Ilhabela atual, a Ilhabela vida natural que naturalizava a discriminação dos que a visitavam conforme a sua situação financeira, a ilha das mil maravilhas que se achava o paraíso dos ricos e festivamente sediava a “Ilha de Caras”.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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