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É pau, é pedra, é o fim do caminho, é um resto de toco … Mas não foram as águas de março chegando e sim um vendaval como nem se lembrava mais ter sido visto um dia por essas bandas.

Quem estava na rua na beira da praia achou até que podia ser tsunami tal a força do vento e da chuva. Quem estava na vila perto do píer viu espantado uma das pernas do atracadouro se dobrar feito papel.

Árvores gigantescas tombaram levantando calçada; galhos e folhagens se espalharam por tudo quando é canto; barcos afundaram; barcos viraram no canal; barcos colidiram com pedras da praia; postes de luz caíram; fiação elétrica, telefônica e de internet foi cortada; construções desabaram e o pior de tudo: gente morreu.

Tragédia é o melhor adjetivo para agrupar tanto acontecimento dramático no mesmo saco de ruindade.

Nessas horas falam que o clima está mudando; que a natureza em fúria se rebela e dá o merecido troco para a humanidade que tanto a destratou e destruiu. Nessas horas, se estivesse presente na rua e sentisse na pele as agulhadas da chuva e ensurdecesse com o rugido do vento, até o mais ferrenho defensor de não haver aquecimento global tremeria na base, nem tanto pela fúria do céu mas pelo seu próprio medo e duvidaria então da sua pregação desacreditando a mudança climática.

A Elektro, que a mais suave lufada de ar derruba a transmissão da sua eletricidade, abestalhada a viu faltar na ilha toda. E bairros inteiros permaneceram uma infinidade de horas sem luz. Gente tão acostumada à barulheira de TV, rádio, celular, geladeira, micro ondas, etc de repente se viu no meio de um silêncio de cemitério, tendo sobre a cabeça um firmamento estrelado de ofuscar a vista como só se enxerga no fundo do sertão.

Essa ausência de barulho, só interrompida pela passagem esporádica dos carros, poderia ter aquietado as almas mais atormentadas.

Mas não. Teve muito morador que na falta de motosserra, depois do vendaval saiu de facão em punho distribuindo golpe a torto e direito em tudo quanto é árvore ou mato que encontrava pela frente de tanta raiva pelo estrago.

O fato é que não se pode culpar a árvore por cair. Acreditar que o certo é cortá-la fora da calçada ou do quintal é problema, não solução. Se alinha na mesma ótica obtusa de muitos agricultores, madeireiras, mineradoras; empresas e pessoas afoitas por ganho imediato sem se preocupar com o futuro. Com uma retórica tortuosa, dogmática e cheia de arestas que, infelizmente, não se consegue higienizar pela luz da ciência e da inteligência.

É manchete recente que mais de seiscentos cientistas europeus e mais de trezentas organizações indígenas estão agora fazendo pressão sobre a União Europeia para não comprar mais do Brasil por causa do desrespeito do governo com o meio ambiente, povos da floresta e direitos sociais. Quando esse movimento inflamar pra valer em escala planetária, ficará seguramente sem voz o locutor da propaganda que berra: agro é tech, agro é pop, agro é tudo pelo susto de ver esse pujante setor da nossa economia afundar que nem afundou barco no Canal de São Sebastião por causa desse vendaval. E aqueles que ora se armam vão se dar conta que o fizeram para dar é tiro no pé.

Retomando o foco, dia seguinte à destruição, funcionários da prefeitura, da Elektro, Telefônica, bombeiros se fatigaram para colocar a casa em ordem. E aos poucos, ela volta ao normal pela ação exitosa de todos esses trabalhadores a quem tanto devemos ser gratos. Que nos provam que com boa vontade, paciência, solidariedade e trabalho de equipe, tudo se conserta.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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