foto em foco: vamos a la playa?

vamos a la playa?

coluna de opinião da série foto em foco
Márcio Pannunzio, texto & foto

 A praia é do povo como o céu é do condor… Declamaria hoje Castro Alves, mudando um tantinho o seu poema.

A gente aqui do litoral bem sabe que isso aí não é uma verdade absoluta. Porque basta dar uma olhadinha pras muralhas que em muitas das praias daqui, nos roubam até a possibilidade de enxergar o mar da rua, pra perceber que não é bem assim.

Porque quem chegou contente à areia carregando seu isopor cheio de cerveja, frango e farofa e se deparou com área vip de hotel chique e logo em seguida deu de cara com segurança brutamontes, descobriu chateado que não é tudo liberado.

E vamos lá: quem atravessa de balsa e olha pra costeira do sul na ilha, logo enxerga um montaréu de mansões que são verdadeiros feudos. Como existiam tantos na idade média; fortificações encasteladas, isoladas umas das outras tendo cada uma seu próprio reizinho, seu senhor feudal que ali ditava as regras de como deveria se comportar a pobraiada da época. Esses palácios formam uma barreira praticamente intransponível para se mergulhar no mar abaixo. Quem desse mar único desfruta é só a gente endinheirada que de vez em quando habita essas casas onde o quarto do dono & dona é maior do que qualquer casa do minha casa minha vida.

Bom, mas tomando como exemplo ainda a Ilhabela, apesar dela ter praia interditada ao populacho ou com acesso dificultado, obrigando quem quer chegar nela a enfrentar olhares sem conta de preconceito e recriminação dos esnobes do lugar, há felizmente ainda muita praia quase totalmente aberta sem que haja esse tratamento claramente hostil. Isso por causa dos inúmeros comércios que tomam parte delas e que no desejo de ganharem demais, tratam mal quem nada consome deles, como se houvesse qualquer obrigação de encher a cara de cerveja e batidinha e entupir a pança de fritura indigesta e cara.

A praia do Perequê, por exemplo, é um espaço onde convivem em igualdade, endinheirados e duros, velhos e jovens, cultos e tapados.

Pois então. A coluna anterior nos alertava sobre o risco de perda da soberania nacional. Mas isso é meio indiferente a muita gente que não se importa em assistir o país virar quintal de outro.

Entretanto, essa gente que não leva a sério esse risco, precisa ficar atenta pra que, nesse processo, além de a perder a sua soberania, possa perder também o seu livre acesso à praia.

Sim, porque é fato e não opinião que um dos objetivos do Flávio Bolsonaro é o de privatizar as nossas praias para que elas sejam propriedade somente dos ricaços, dos hoteleiros e donos de cassino. O projeto foi parado diante da indignação que despertou. Se Flávio for eleito, ele pode voltar e com força total. E aí a caiçarada pouca que ainda está vivendo na praia, poderá perdê-la de vez. Nós todos sem poder e sem dinheiro poderemos perder. Só a banda rica poderá ganhar. Castelhanos poderá se encher de condomínios fechados de altíssimo padrão, cassinos e hotéis de luxo. E a turistaiada que lá chegava de jipe poderá não ser mais bem-vinda. Pode ser que até tenha quem chegue lá de jipe fretado, mas aí será só para quem vai lá se hospedar pagando uma fortuna ou para trabalhar na escala 7X0.

Lembra daquele resort português na Serraria? Poderá ser construído e a caiçarada do pedaço poderá ser varrida da areia pra se esconder e morar no fundo do sertão. E o Bonete então? Com acesso asfaltado como poderá igualmente ser o de Castelhanos, se encheria de zona de rico e jogatina. Pode ser que instalem lá uma cancela como a que hoje existe na entrada do parque ( que poderá ser devastado pela a agenda ambiental desse novo governo ). Uma cancela pra barrar entrada de gente indesejada. E só a permitir, se for pra trabalhar de sol a sol, todas a horas, pra limpar privada e carpir mato de mansão, hotel ou cassino.

Em tempos de preguiça mental geral em ler, em tempos de dependência total em ver o que incendeia celular no grito, convém parar por aqui antes que o leitor leitora vá-se embora entediada. Deixando que nos explique melhor essa tragédia, aquela que já foi mulher invisível e que agora tá bem visível nas redes pra nos revelar com clareza do pior que poderá vir depois de 25 de outubro.

 

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Sobre Márcio Pannunzio

Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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