foto em foco: o dia seguinte

o dia seguinte

coluna de opinião da série Foto em Foco

Márcio Pannunzio, texto & fotos

 

O trailer que abre a coluna é o de uma comédia de 1959, uma sátira política triplamente estrelada por Peter Sellers. O minúsculo Grão-Ducado de Fenwick declara guerra aos Estados Unidos e, extraordinariamente, vence. O ratinho branco do título que aparece na criativa abertura e no final, é um bichinho simpático e inofensivo. Apesar disso, representando Fenwick, ele ruge.
Pois temos agora, não em filme, muito embora possa até inspirar algum bem pangaré, um caso real de invasão de rato desta vez visto feito um bicho asqueroso nessa nação que ora atemoriza o mundo com as barbaridades dum presidente autocrata. A diferença é que esse rato repulsivo não ruge; covardemente, calunia e choraminga. E, levando em conta a fala privada ( privada aqui não é vaso sanitário, se bem que … ) do Malafaia, pode ser que nem rato ele seja, mas sim jumento.
Contra o que previam muitas pesquisas eleitorais, houve uma virada mais do que cinematográfica e tão impactante quanto a vitória de Fenwick. Enfrentando a meta, as bets, o Cassio com K e o terrivelmente evangélico, o boicote nas linhas aéreas e linhas de ônibus, o patronato chantagista, os amantes da ditadura, a Faria Lima, a imprensa venal e inescrupulosa, a intimidação de forças policiais a mando dos coronéis de plantão, a violência das falanges bolsonaristas, o apelo dramático da parentada cloroquinista bebedora de detergente e adoradora de pneu de trator para que pensássemos na filharada netarada e sobrinhada, o agro ogro, o fundamentalismo religioso, os interesses espúrios de nações estrangeiras e, ufa, o jogo virou e fechando com rima chave de ouro, Lula ganhou.

O Brasil que emerge dessa eleição não pode ser comparado à minúscula Fenwick; territorialmente é um país imenso e economicamente é a 10ª economia mundial. Mas igual ao paisinho do filme, venceu uma batalha inacreditável desobedecendo fortíssimas pressões da elite financeira nacional e a pretensão intervencionista dum governo autoritário poderosíssimo. Esse resultado duramente conquistado aliviou o mundo democrático e seus habitantes hoje fazem o L com muito orgulho.

Neste dia seguinte, é humanitário respeitar a dor, a decepção de quem perdeu. Acreditaram num país melhor para si e suas famílias e se frustraram. Têm o direito de vivenciarem seu luto em paz. Quem venceu, por humanidade, deve entender essa tristeza de perder e não tripudiar dela; é preciso dar tempo ao tempo para que essa parte expressiva do eleitorado, deixada órfã por seu candidato evadido, se recupere e constate que o país e a vida seguem adiante.

Não obstante, há uma turma nas redes sociais e isso noticia o Nova Imprensa, perseguindo quem votou 13. Avisos de corte de relações pessoais, incitação ao boicote a comércios e profissionais tidos por petistas e incentivo à demissão de funcionários que votaram no vencedor, tomaram conta da internet.

Essa atitude desumana, criminosa segundo a Justiça do Trabalho, de empresários bolsonaristas defendendo energicamente a demissão de mão de obra petista e a praticando sadicamente é abjeta, é absolutamente indefensável e encontra paralelo perfeito com o comportamento das hostes nazistas a partir de 1933, acossando cruelmente judeus, comunistas, artistas, jornalistas, democratas, ciganos, homossexuais, deficientes físicos, enfim, todos que não se encaixassem no figurino ariano racista. É, pois, um exercício de terror imaginar o que essa facção de idólatras do ódio poderia fazer se o vencedor fosse o rato fujão. Como seria o dia seguinte? Um dia de incontrolável fúria, de perseguição impiedosa, de sangrento apedrejamento da metade da população que votou em Lula?

No distante 2018, esta coluna escrevia profética que o Brasil perdeu a graça e afirmava que:  A boa política deve desarmar e não armar as pessoas. A boa política deve unir e não desunir. A boa política deve estimular o amor e não o ódio. A boa política deve reverenciar a cultura e não apequená-la.
Prosseguindo e marcando posição acerca da melhor escolha, do melhor voto, ela aconselhava: Uma escolha que não nos lance na vertigem da ignomínia e destrua a pouca empatia que ainda sobrevive entre nós. Uma escolha que não instigue a proliferação de grupos como o Movimento Brasil Livre que insensatamente achincalhou artistas, obras, exposições, museus. Uma escolha que sim nos mantenha respeitando nossas diferenças e com liberdade para expressá-las. Uma escolha que sim nos afaste do rancor e nos aproxime da tolerância. Uma escolha que sim nos faça alegres, não tristes. Desgraçadamente, desastrosamente, a maioria da nação então escolheu empoderar um projeto de destruição das instituições, da cultura, da ciência, da arte, do jornalismo, da educação, da política, das minorias, da saúde mental da população e, durante a pandemia, um programa genocida e assim mergulhamos em quatro anos de horror culminando numa tentativa de golpe de estado e de assassinatos de autoridades. Perdedores, perdedoras nesse pleito trágico, aceitaram seu insucesso e passaram a fazer oposição respeitosa ao (des)governo eleito.

Quatro anos depois, em 16 de outubro de 2022, outra coluna intitulada Festa na Praça, comemorava antevendo o fim daquela calamidade. Concluía rememorando versos de Deo Lopes:

meu coração sobrevoa a cidade aflita

e descobre que nos olhos de cada pessoa

uma força boa brilha e se refaz

e se cada coração se pacifica

a cidade inteira vive em paz

 Aí reside a beleza da democracia: na possibilidade de alternância do poder. Na sua capacidade de pôr fim a um governo catastrófico.

Essa pregação insensata de rompimento de relações, de criação de listas de petistas feita também por pessoas daqui, algumas bastante conhecidas e que se dizem até jornalistas e artistas, é um absurdo, é um vexame, é uma vergonha. Muitas dessas pessoas já perceberam isso e arrependidas, voltam atrás, apagam as postagens ofensivas, pedem desculpas. Aquelas que não perceberam e insistem em odiar e intimidar, correm o risco de serem desmoralizadas e penalizadas judicialmente, causando constrangimento e desonra para si e suas famílias.

Contribuiu decisivamente para a vitória lulista, a percepção de que o dia seguinte da vitória bolsonarista poderia ser um dia de fim de mundo, com o desmantelamento de qualquer sonho de pátria feliz. Aí, uma multidão tomou o país inteiro e também as redes sociais sem medo de vestir vermelho. Foi espantoso o número de pessoas que, literalmente, colocou a cara às claras, publicamente, fazendo o L, dando depoimentos emocionados na esperança de alterar aqueles prognósticos de derrota. Gente como a gente; não influenciadores a soldo de bets & afins. Vizinhos, vizinhas nossos, a maioria sem qualquer filiação partidária, falando em vídeos caseiros no FaceBook, no Instagram, no WhatsApp. Tentando apaixonadamente nos fazer entender que era urgente mudar o curso da história. Não deveríamos encarar essa ação coletiva somente como um esforço de guerra. Foi muito além. Foi um ato coletivo de amor ao futuro do Brasil com s, do Brasil República Federativa.

Essa coluna que se chama foto em foco e que saiu sem foto em sua últimas quatro, agora se abarrota de foto registrando a participação combativa e festiva de cidadãos e cidadãs de São Sebastião e Ilhabela que lotaram as ruas e praças colaborando para esse desfecho que consagrou a nossa soberania e preservou a nossa frágil democracia.

 

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Sobre Márcio Pannunzio

Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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