o perigo de dar poder a um espírito obsessor
coluna da série de opinião foto em foco
Márcio Pannunzio
Rancor, mágoa, ressentimento, raiva, ódio. Todos esses sentimentos ruins, negativos, prejudiciais à boa saúde estão associados aos espíritos obsessores. Fantasiando, se pensa que eles existem num campo imaterial; são seres desencarnados com a capacidade de infernizarem a vida dos vivos.
A gente se sentia um tanto resguardado da ação nefasta deles por julgar que se existissem, existiriam num mundo paralelo, bem distante do nosso e que lá desse lugar sombrio teriam pouca chance de nos causar mal.
Pois quem assistiu o debate entre os presidenciáveis na rede Bandeirantes, descobriu, surpreso, que obsessores podem existir no mundo real. Um dos candidatos comportou-se feito espírito obsessor não apenas para o seu concorrente, mas para quem teve paciência de ver o programa.
Quando a gente tentava se concentrar para ouvir e acompanhar a fala do presidente Lula, era o outro quem nos perturbava e distraía o tempo inteiro no fundo da tela, caminhando com postura petulante e agressiva, fazendo caras e bocas de contrariedade ou rindo cinicamente enquanto gesticulava freneticamente com a mão na intenção de negativar o discurso do presidente.
Foi, realmente, dificílimo conseguir entender a fala de Lula. A presença do seu oponente se comportando como um Collor bombado invadindo a cena numa atitude de completa falta de educação e respeito à audiência, comprometeu de maneira irremediável nosso esforço de prestar atenção.
Atitude moleque, apontaram comentaristas.
Na verdade, espíritos obsessores fazem coisa muito pior do que molecagem.
Collor hoje presidiário em mansão numa situação parecida ao de recente ex-presidente, destruiu sonhos & vidas sem conta por causa dum plano econômico desastroso. Quem não se lembra do terror do dia seguinte? O dia em que se aprisionou todo o dinheiro das contas correntes e de poupança deixando o povo brasileiro sem dia seguinte, sem futuro a ponto de muita gente se suicidar ou morrer de amargura?
Jornalistas independentes nos alertam do perigo de extinção dos programas sociais; de sucateamento do ensino, da cultura e da saúde pública; da diminuição do valor das aposentadorias e do aumento do tempo de serviço para se aposentar; do desmanche das leis trabalhistas; da adulteração indevida da nossa constituição cidadã; do aumento da violência com a ascenção das mílicias; da devastação do meio ambiente; de perseguição das minorias e da volta da censura; de uma onda de privatizações desenfreadas e lesivas aos cofres públicos; de aniquilação de comunidades caiçaras, quilombolas e indígenas; de liquidação da ciência; de perder livre acesso às praias; do retorno das bets; do surgimento de novos Vorcaros; do aparelhamento do STF; de destruição da democracia brasileira; do enriquecimento ainda maior dos já muito ricos causando o empobrecimento desumano dos pobres…
Um quadro de tamanha terra arrasada seria a glória de qualquer espírito obsessor empoderado. O estado que existe justamente para zelar pelo bem comum, para proteger os fracos da violência dos brutos, não pode jamais cair na mão de obsessores.
A história nos conta repetidamente sobre a desgraça provocada pelos governos autoritários, pelos governos servis aos gananciosos, aos endinheirados, aos obsessores.
Infelizmente, elegeu-se para o congresso e senado uma legião de espíritos obsessores.
Corremos o risco de eleger para a presidência um sujeito que age acintosamente feito espírito obsessor. Será inimaginável a lista de ruindades possíveis, tão nefastas quanto as praticadas pelo outro jovenzinho almofadinha do passado, o obsessor exorcizado pelo impeachment na nada saudosa década de 90. Com um congresso e senado aliados, o obsessor de amanhã não seria desbancado do poder e seus malfeitos poderiam ser inteiramente realizados.
O dia seguinte do Collor aconteceu justamente um dia após a sua posse, no dia 16 de março de 1990, desencadeado pela fala patética e destemperada da sua equipe econômica capitaneada pela sumida Zélia Cardoso de Mello.
Vamos, imprudentemente, reviver novamente essa história, não como farsa, mas como tragédia?
Há gente avisando. Só não vê quem não quer.
Recordar é viver. Aí embaixo, o trailler do dia seguinte. Hoje ele pode acontecer sem o estouro de bombas atômicas. Basta a ação dum governo ancorado no ódio estourando ações catastróficas.



