Flávio Maluf e o papel da educação ambiental na formação de mercados sustentáveis

No dia 16 de setembro de 2025, cerca de 140 alunos do 6º ano de escolas públicas de Bofete percorreram 600 metros dentro de uma área florestal gerida pela Eucatex. A trilha havia sido inaugurada naquela manhã. Os estudantes passaram pela sombra de um jatobá centenário, visitaram o Bosque dos Macacos e chegaram à Vila das Abelhas, onde colônias de abelhas jataí, nativas e sem ferrão, vivem entre as árvores. [1]

A Eucatrilha é nova. O programa que ela integra não é. O Programa de Educação Ambiental (PEA) da Eucatex existe desde 1999. Passou por mais de 28 mil alunos ao longo de 26 anos. E a compreensão que o orienta, de que formar pessoas para entender o ambiente é também formar mercados que valorizam esse entendimento, atravessa cada decisão que Flávio Maluf tomou à frente da empresa desde que assumiu a presidência, em 1997. [2][3]

26 anos de escola no meio da floresta

O PEA nasceu no mesmo ano em que o Brasil promulgou a Lei 9.795, de 27 de abril de 1999, que institui a Política Nacional de Educação Ambiental. [4] A coincidência tem peso. Muitas empresas aguardaram a regulamentação para agir. A Eucatex já organizava o programa naquele mesmo ano, a partir de suas áreas florestais no interior paulista.

O modelo é exigente no conteúdo. Alunos de escolas públicas de Bofete e de Salto visitam a Casa da Natureza, o centro físico do programa instalado na fazenda de pesquisa e no viveiro de mudas da empresa em Bofete. As sessões são conduzidas por biólogos e engenheiros ambientais. O roteiro abrange fauna, flora, recursos hídricos, silvicultura e manejo de resíduos. O conteúdo não é genérico: cobre o ciclo do eucalipto plantado, a cadeia do painel de madeira, o funcionamento de um viveiro de mudas clonais. [3]

Em 26 anos, o programa foi suspenso em 2020 e 2021 por causa da pandemia. Em 2022, as atividades migraram para o formato remoto. Em 2023, voltaram ao presencial. Nos cinco anos anteriores à pandemia, mais de 1.000 alunos participaram. Ao longo de toda a sua história, o número supera 28 mil. [3] A Eucatrilha, inaugurada em setembro de 2025, é o investimento mais recente nessa trajetória: 600 metros de trilha projetada para transformar uma floresta gerida em sala de aula permanente. [1]

A lógica das abelhas

A Vila das Abelhas não é um elemento decorativo. O Programa Polinizar, mantido pela Eucatex há mais de 20 anos nas regiões de Botucatu e Itatinga, trabalha com apicultura e sustentabilidade de forma integrada. As abelhas jataí que vivem na Eucatrilha estão lá porque há floresta suficiente para sustentá-las. A presença delas mede, de forma concreta, a saúde do ambiente ao redor.

Naiara Carvalho, gerente de Tecnologia, Meio Ambiente e ESG da Eucatex, descreveu a intenção da trilha na cerimônia de inauguração: “Queremos que todos os visitantes, especialmente crianças, saiam daqui com uma nova percepção sobre a importância e a responsabilidade de cada um de cuidar da natureza e do papel que a silvicultura desempenha no contexto socioambiental.” [1]

A declaração é institucional, mas aponta para um efeito documentado. Ao longo dos anos, a Eucatex contratou profissionais que participaram do PEA quando eram estudantes. [3] A educação ambiental retorna ao sistema produtivo na forma de capital humano que já compreende as premissas do negócio antes de entrar na empresa. Esse não é um resultado que se planeja em um trimestre.

FSC, exportações e a credencial que não se compra com decreto

A Eucatex possui certificação FSC desde 1996, três anos antes da lei que tornou a educação ambiental uma política pública nacional. A certificação é um padrão de cadeia de custódia que rastreia madeira da floresta até o produto acabado. Ela exige envolvimento com comunidades locais, transparência nos processos florestais e atenção sistemática aos impactos socioambientais.

A empresa exporta para mais de 40 países. Os mercados de piso laminado e painéis de madeira na Europa e nos Estados Unidos são os que mais frequentemente exigem certificação de origem sustentável como condição de acesso. A Eucatex North America, subsidiária com base na Flórida, é o braço operacional desse posicionamento. As exportações correspondem a aproximadamente 25% da receita total da companhia.

Certificação não se mantém por declaração interna. Ela exige uma cadeia de fornecimento, um entorno comunitário e uma força de trabalho que compartilham premissas de manejo. Um comprador europeu que exige FSC como condição contratual está, na prática, perguntando se a empresa tem substrato social suficiente para sustentar esse padrão ao longo do tempo. O PEA é parte da resposta. Vinte e seis anos de programa, com 28 mil alunos passando por um viveiro de mudas clonais e aprendendo sobre ciclos hídricos, constroem um tipo de reputação que nenhuma campanha de marketing produz.

100 mil toneladas e 300 parceiros

A educação ambiental aplicada à cadeia produtiva aparece em outra iniciativa. O Programa de Reciclagem da Madeira existe desde 2004 e opera a maior central de reciclagem de madeira em escala industrial da América Latina, em Salto. Em 2025, a Eucatex expandiu o programa para as unidades fabris de Eucatex Fibra e Eucatex MDP, atendendo também o município de Botucatu e a região. [5]

O modelo recebe resíduos de madeira e encaminha mais de 100 mil toneladas por ano para uso como biomassa nas caldeiras industriais. Isso reduz o uso de combustíveis fósseis, diminui a emissão de gases de efeito estufa e evita o descarte inadequado em aterros. A rede de parceiros passou de 300 empresas. Cada uma delas recebe relatórios mensais com os volumes gerados e destinados. Caçambas e coletas são gratuitas, agendadas pelo telefone 0800 77 01 909. [5]

A mecânica tem um componente educacional preciso. Os relatórios mensais transformam os parceiros em agentes que mensuram o que descartam. Eles deixam de tratar o resíduo de madeira como problema logístico e passam a vê-lo como insumo. Trezentas empresas aprendendo a calcular o que geram e para onde isso vai: isso é educação ambiental na cadeia produtiva, sem o nome.

Flávio Maluf e a conta de longo prazo

Flávio Maluf preside a Eucatex desde 1997. Formado em Engenharia Mecânica pela FAAP em 1985 e com estudos em administração de empresas na Universidade de Nova York, ele entrou na Eucatex em 1987 pelas operações de exportação e importação, antes de migrar para a área industrial.

A receita da Eucatex chegou a R$ 3,1 bilhões em 2025. A companhia mantém aproximadamente 48 mil hectares de florestas próprias no estado de São Paulo e produz 13 milhões de mudas clonais por ano. O investimento na Usina Solar Castilho, o maior parque solar do estado de São Paulo, somou R$ 300 milhões. Hoje, 50% da energia consumida nas fábricas vem de fontes renováveis. Para 2026, o capex previsto é de aproximadamente R$ 500 milhões, voltado à expansão florestal, modernização industrial e possíveis aquisições no Brasil e em mercados vizinhos.

Esses números são construídos sobre ativos que não aparecem no balanço trimestral. A certificação FSC mantida desde 1996. Os 28 mil alunos que cresceram sabendo o que é um clone de eucalipto. Os 300 parceiros de reciclagem que aprenderam a transformar resíduo em biomassa. A reputação de uma empresa que não suspendeu o programa de educação ambiental quando ficou mais fácil fazer isso.

A Eucatrilha tem 600 metros. Ela existe porque, em 1999, alguém decidiu que investir em educação ambiental era parte do modelo de negócios, não um custo paralelo. Vinte e seis anos depois, a empresa que tomou essa decisão exporta para mais de 40 países, sustenta 48 mil hectares de floresta certificada e tem 13 milhões de mudas crescendo por ano. A correlação não prova causalidade. Mas ela tampouco é coincidência.

Notas

[1] Eucatex. “Eucatex inaugura trilha ecológica em Bofete (SP) e apresenta novidades para a educação ambiental.” Eucatex Blog, 20 de outubro de 2025. https://www.eucatex.com.br/blog/eucatex-inaugura-trilha-ecologica-em-bofete-sp-e-apresenta-novidades-para-a-educacao-ambiental/ 

[2] Informações institucionais sobre a trajetória de Flávio Maluf e a Eucatex constam de materiais públicos da companhia e do histórico editorial do grupo.

[3] Eucatex. “Eucatex comemora 25 anos do Programa de Educação Ambiental.” Eucatex Blog, 18 de junho de 2024. https://blogeucatex.host.aatb.com.br/eucatex-comemora-25-anos-do-programa-de-educacao-ambiental/

[4] Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999. Política Nacional de Educação Ambiental. Presidência da República, Brasil. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9795.htm

[5] IBÁ (Indústria Brasileira de Árvores). “Avanço na economia circular pelo Programa de Reciclagem da Madeira da Eucatex.” 29 de abril de 2026. https://iba.org/comunicacao/noticias-do-setor/avanco-na-economia-circular-pelo-programa-de-reciclagem-da-madeira-da-eucatex/

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *