e la nave va

coluna de opinião da série foto em foco

Márcio Pannunzio, texto & fotos

E la nave va, o título do último filme de Fellini, é uma expressão que significa fatalidade, conformismo. Pois é o que sentimos diante da corriqueira chegada e saída dessas gigantescas naus transatlânticas, como essa das fotos da coluna. Ela não é um shopping center gigante flutuante como hoje o são os que antigamente se chamavam navios de cruzeiro. Transportam gado vivo para ser morto na Turquia seguindo ritos ditados pela religião. Não provocam deslumbramento como o fazem as destinadas aos turistas, mas suplício absurdo, imenso, ignóbil. Deixam na cidade de São Sebastião um rastro fedorento de urina e merda derramada em abundância das carretas de gado pelas ruas por onde passam. Transportado de pastos distantes, espremido cruelmente, esse gado sacoleja durante dias intemináveis para enfim embarcar em São Sebastião para uma viagem de terror inimaginável.

Ponto de conexão desse filme feliniano com a história recente, é que, assim como ele culmina num naufrágio, um portento desses, batizado de Haidar, afundou no rio Pará, quando saía do porto de Vila do Conde, causando um desastre pavoroso por causa do assassinato por afogamento de mais de cinco mil bois e do derramamento poluidor de setecentas toneladas de óleo.

Imaginemos que essa mesma tragédia tivesse como palco o Canal de São Sebastião.

Horror, horror, horror. E horror maior é supor que numa suprema desfaçatez, a operosa indústria do turismo local se aproveitasse dessa calamidade pra vender excursões náuticas pra patuleia instragramadora, ao invés de ver  jubarte espirrar e dançar, se assustar e vomitar vendo a boiada apodrecer boiando descarnada na contramão atrapalhando o tráfego petroleiro e shopping centreiro.

Houve uma tentativa na Câmara Municipal de pôr um fim nesse negócio do Agro Ogro. Em vão. Representante dos funcionários do porto berrou colérico SE A LEI PASSAR AQUI, NÓS VAMOS DERRUBAR NA JUSTIÇA, VAMOS CONTINUAR ALIMENTANDO NOSSAS FAMÍLIAS COM NOSSO TRABALHO APESAR DE VOCÊS COMEREM ALFACE, OQUEI!!! pintando com cores tétricas um quadro apocalíptico para os trabalhadores portuários, caso fosse seguido o exemplo de tantos outros portos que recusaram esse tráfico: perderiam dinheiro, passariam necessidades terríveis. No seu entendimento, não havia qualquer constragimento no fato desse dinheiro vir duma atividade que infringe enorme dor nos bovinos que são categorizados como seres sencientes. O que significa que são capazes de sentir dor e no caso em questão, muita, muita, muita dor. Bom, parece então que submeter essas criaturas a intenso flagelo nem cócegas deve fazer na consciência dessa classe trabalhadora que, na opinião daquele seu porta-voz, não gosta de alface e demais deve gostar dos seus holerites ainda que eles venham ensanguentados pelo martírio que financiam no porto de São Sebastião causando um fedor insuportável logo na cidade em que moram.

E o Canal de São Sebastião se vangloria, além acolher o translado desse combustível responsabilizado como o principal causador do desastre climático, por ser um dos poucos lugares aonde esse transporte marítimo de gado vivo continua a acontecer colaborando para que o Brasil se destaque nessa atividade comercial macabra, abominada mundialmente. Graças à indiferença de quem não é empático, entre eles, daqueles que pagam e muito, pra ver de perto baleia pular como se fosse animal amestrado em circo.

E isso nos recorda doutro filme de Fellini, Amacord. Há nele uma cena inesquecível, entre tantas. É quando a fascistaiada de Rimini se aboleta num monte de barcos de tudo quanto é calado e luxo; desde botes minúsculos a pesqueiros e iates. Isso para presenciar bem de perto a passagem dum luxuoso translatlântico inspirado no SS Rex, orgulho da ditadura de Mussolini que, por coincidência, também naufragou depois de ser bombardeado pela força áerea britânica em 1944.

Essa mesma espera e cerco faz a turistaiada e muito morador da ilha para ver as jubartes. Elas, marcando diferença à cena do filme, apesar de serem portentotosas, não têm a força e a brutalidade do navio italiano glorificado. São delicadas, são frágeis. Mas para essas pessoas de celulares em punho e em riste como se gravassem um rodeio em Barretos para viralizar nas suas redes boçais, isso não importa.

E aqui chegamos a outro motivo para o Canal de São Sebastião orgulhar-se. Transformou-se agora nessa arena de cerco alvoroçado e malfeitor de jubartes pelo turismo estúpido e ganancioso mobilizando humanos desumanos.

E eles podem explicar o fato de se espremerem nesses barquinhos de aluguel, dizendo que não têm jet-ski para bem pertinho das baleias chegaram por si mesmos, a ponto de as chutarem e beliscarem pra que saltem saciando seu gozo abjeto. Como o fez veloz em seu possante jet-ski, o ex-presidente agora condenado a pagar dura pena confinado numa bela mansão. Foi processado judicialmente em 2023 justamente por importunar uma desavisada jubarte nesse mesmo canal. Denúncia arquivada, não deu em nada. E la nave va.

14 de junho. Passou. Por aqui, palco corriqueiro da partida desses trambolhos entupidos de gado vivo mar afora, nada foi escrito ou falado lembrando da importância dessa data. Pois é. Foi o Dia Mundial de Conscientização para o Fim da Exportação Marítima de Animais Vivos.

reclamar pra quê?

reclamar pra quem?

 

 

 

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