foto em foco: a cordialidade de araque

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a cordialidade de araque

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coluna de opinião foto em foco

Márcio Pannunzio

O sincretismo religioso brasileiro parecia ao olhar estrangeiro, uma prova da nossa pluralidade. Brasil, terra dum povo inzoneiro porém cordial era e continua a ser, lenda. Na verdade, o espiritismo e religiões de matriz africana foram vítimas de preconceito e perseguição ao longo da história.

Hoje, sobretudo, notícias recorrentes nos contam da violência sofrida por essas duas nas regiões dominadas por traficantes e milicianos evangélicos e o problema só fez se agravar nos últimos três anos.

As fotos da coluna mostram a convivência pacífica de santos de diferentes devoções no espaço minúsculo duma capelinha inteiramente aberta para uma estradinha rural de trânsito quase deserto. Seria esse um cenário de paz e harmonia religiosa, não nos contassem diferente narração o relato de moradores próximos. O singelo local de democrático culto foi várias vezes, vandalizado; suas brancas paredes conspurcadas com bosta humana.

Mudanças de ano trazem em seu bojo sempre a esperança de dias melhores e isso se repete para esse 2022 que principia. Infelizmente, as paredes da nacionalidade que nos envolvem e abrigam, feito as dessa simplória capelinha, têm sido implacavelmente agredidas a ponto de comprometerem nossa precária segurança e pequeno conforto. A cidadania ultrajada quer crer que esse será o ano da redenção; do regaste daquela civilidade e inteligência seriamente hostilizadas por uma maneira estúpida, imbecil e desumana de nos governar que não se restringe somente ao governo federal, mas que também encontrou morada nos estaduais e municipais eleitos na larga esteira da onda reacionária de 2018. A mando de políticos populistas autoritários, ignorantes e truculentos, legarão para a posteridade o péssimo exemplo de suas horríveis gestões.

Há pois muita gente que acredita, para apaziguar a enorme aflição de viver nesses pavorosos dias d’agora, que logo em outubro de 22, o infortúnio terá fim. Todavia, esse cancro asqueroso que depravou a nação feito a merda que emporcalhou a capelinha rural será de difícil remoção. Apagá-lo de todo será tarefa impossível, haja vista que já se entranhou no tecido frágil da sociedade brasileira causando gigantesco estrago.

Articulistas respeitados costumam afirmar que as instituições funcionam no Brasil, mas isso é desmentido o tempo inteiro. Funcionassem realmente e jamais Bolsonaro seria presidente pois teria perdido há décadas o seu mandato de deputado, cassado por seus pares por suas declarações antidemocráticas, homofóbicas, misóginas e racistas. Entretanto, isso não aconteceu e de absurda transgressão em ainda mais odiosa transgressão, cresceu conquistando o cargo máximo da república graças ao voto de expressiva parcela do eleitorado, boa parte dele, ciente da sua mediocridade e nocividade. O que revela que esse ovo de serpente encontrou colo caridoso desse povo tido como cordial.

Não existe cordialidade em cercas de arame farpado ou cercas eletrificadas. Não existe cordialidade em paredões, muralhas que apartam do restante da cidade, guetos de gente de igual estirpe. Não existe cordialidade em comércios que discriminam pobres e negros. As cidades brasileiras se sufocam faz tempo na arquitetura do medo e da segregação e essa repulsiva paisagem, muito mais do que a pretensa cordialidade brasileira, consagrou-se como a real marca identitária do Brasil. Um país desigual e cruel, embrutecido pelo racismo estrutural e vilipendiado pela exploração predatória dos seus ricos recursos naturais e da sua abundante mão de obra pobre e miserável por uma poderosa elite tosca endinheirada com o beneplácito dos poderes republicanos.

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Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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