foto em foco: quando o carnaval chegar

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e que me ofende, humilhando, pisando, pensando
que eu vou aturar
tou me guardando pra quando o carnaval chegar
e quem me vê apanhando da vida
duvida que eu vá revidar
tou me guardando pra quando o carnaval chegar

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 Inesquecíveis versos de quando o carnaval chegar de Chico Buarque no distante ano de 1.972.

O presente faz ponte medonha com o passado nesse nosso cotidiano intolerável onde por mais que nos esforcemos em construir um país afortunado, só conseguimos mesmo é adoecer vivendo um pavoroso pesadelo.

A década de 70, a despeito do milagre brasileiro que ensejou um espasmo de forte desenvolvimento econômico de fôlego curto, foi tenebrosa. Ditadura militar; impiedosa perseguição política; prisões arbitrárias; tortura; aniquilamento da oposição; morte; censura draconiana a ponto dos jornais estamparem versos de Camões e receitas culinárias para cobrir o espaço inesgotável das matérias tesouradas; espíritos públicos geniais impedidos de participar da governança porque foram implacavelmente agredidos, tiveram seus mandatos cassados, foram expulsos das universidades, das repartições, das forças armadas, inúmeros foram presos e muitos assassinados; fuga generalizada de talentos em todas as áreas para o exterior; o poder nas mãos de tão poucos; gente sem escrúpulos se enriquecendo veloz à custa do infortúnio de tantos; o país inteiro alijado do direito de enxergar a sua cruenta realidade despida da alienante publicidade oficial autoritariamente imposta pelos tiranos; notícia da pandemia de meningite que matava sem trégua milhares de brasileiros estupidamente escondida da população em nome da preservação da economia; a necessidade de falar de maneira figurada, com rodeios e floreios para conseguir dizer a verdade; a inteligência irremediavelmente fraturada pelo odioso slogan Brasil ame-o ou deixe-o; o país pateticamente cantando ir pra frente enquanto desmantelavam sem nenhum arrependimento a democracia e o estado de direito; o pavor visceral nas mentes esclarecidas e nos corações amorosos; o guarda da esquina se deliciando sadicamente ao exercer sua autoridade amedrontadora…

Havia carnaval, é claro. Mas ainda que ele fosse alegre na sua superfície, melancólico era por debaixo dela assim como o é a música do Chico.

Que apesar de não ser um samba carnavalesco e sim um tristonho samba canção, é um hino à crença de que dias melhores virão. Dias de redenção e alegria.

Nosso carnaval de agora não houve; não chegou. Ficamos esperando como na canção, mas esperamos à toa, ele não veio. Pelas ruas vazias e mesmo naquelas que fingem respirar uma normalidade assassinada pela pandemia do coronavírus e pelo desatino bolsonarista, o que vivemos é o não carnaval que nos entristece.

Então a foto em foco, repetindo o que fez em relação à congada que não aconteceu, vai aqui reproduzir fotos de carnavais passados de Ilhabela, nos lembrando de que já fomos por aqui muito alegres, muito felizes e bastante capazes de exorcizar o ressentimento, deixando nossas diferenças todas de lado para nos unirmos nessa confraternização que era para o resto do mundo, a foto mais bela do Brasil.

Se pode a fotografia ter alguma relevância, apesar de irrelevantes serem considerados os seus autores, seus nomes sempre escondidos atrás de créditos, quando eles existem, visíveis somente com lupa, que possam então essas fotos antigas estimular a esperança de celebrarmos no futuro um carnaval onde a alegria, a cordialidade, a esperança, a fé na ciência e na cultura, a solidariedade, o afeto, a empatia, a política virtuosa, a bondade, sejam, todas elas, abre-alas, passistas, porta-bandeiras, bateria dessa escola de samba que todos queremos campeã.

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Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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