foto em foco: acabou nosso carnaval

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No momento em que até a galhardia do presidente Jair Bolsonaro titubeia em manter na agenda oficial a viagem a Itália,  agora assolada pela infernal praga da vez, Ilhabela não esmorece na sua coragem.

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Ela não medrou em receber de braços abertos como bem propaga a propaganda institucional, os italianos que tiveram seu carnaval cancelado por causa do corona vírus na sua pátria natal.

No arquipélago eles felizmente puderam se esbaldar aos milhares despejados pelos transatlânticos da linea C.

Mas não foi esse o assunto polêmico da ocasião. Foi a decoração das arquibancadas.

Com o mote da sustentabilidade, da reciclagem do lixo, instigou munícipes a fazerem contas e mais contas de quantas centenas de metros de tecido, de quantos milhares de paletes, de quantas toneladas de pneus, de quantas centenas de milhares de aros de bicicleta enferrujados, de quantos milhares de tapetes de taboa, de quantas centenas de milhares de garrafas pet, de quantas toneladas de folhagem de coqueiro remanescentes de serviço de poda seria possível comprar pelo valor de cento e setenta mil reais duma licitação por carta convite divulgada no facebook no dia 18 de fevereiro, às vésperas do carnaval.

Esse esforço é inglório e não deveria ser delegado a ilhabelenses ruins de matemática. Talvez tenha melhor destino se encampado pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas.

O tema foi abordado juntamente com o do trio elétrico, o do dos banheiros químicos montados na praça coronel Julião bastante próximos do chafariz histórico, da superlotação das arquibancadas e da falta de funcionalidade das pulseiras coloridas para acesso aos camarotes numa sessão do dia 3 de março que colocou sob seus holofotes a responsável maior pela realização do carnaval na tarefa de prestar esclarecimentos. Isso num ambiente onde a única representante do poder legislativo mulher estava ausente por motivo de saúde. O que destacou o protagonismo de uma bancada completamente tomada por homens sorridentes e cavalheirescos na inquirição dessa autoridade municipal feminina e na festiva comemoração do “dia da mulher”, que a antecedeu. Comemoração feita antecipadamente com farta distribuição de orquídeas para as mulheres escolhidas pelos vereadores como virtuoso exemplo diante de uma plateia majoritariamente formada por mulheres.

Sem entrar no mérito da controvérsia da contratação dessa ao pé da letra decoração carnavalesca, foi sem dúvida, louvável, abraçar a prática da sustentabilidade, do reaproveitamento do lixo como inspiração. Ainda mais numa cidade que está ganhando manchetes nos grandes jornais como exemplo maior de má gestão; de desperdício de receita pública por tratá-la feito lixo ao investi-la em ações enfaticamente condenadas por sucessivos pareceres do Tribunal de Contas.

Enfim, acabou o nosso carnaval. Mas não dá para cantarolar a marcha da quarta-feira de cinzas porque tem turista de monte rindo à toa pela Vila.

E há uma presença proeminente estacionada nas ruas do centro histórico. A dos carros alegóricos. Repletos de estátuas gigantescas. Em breve vão se ocultar em ruas de pouco ou nenhum trânsito, bem longe do olhar das pessoas.

Isso, depois de brilharem no espaço do desfile duns poucos quarteirões em frente à praça da bandeira. Fizeram a alegria de tanta gente e vão ser em seguida relegados ao esquecimento.

Pois não merecem.

Uma ação realmente afirmativa inspirada pelo respeito à sustentabilidade seria a de reaproveitar toda essa riquíssima arte de anônimos e talentosos artistas populares a presenteando com um merecido palco.

Qual seja, o da praia do Engenho d’Água. E como são muitas as figuras carnavalescas, também os jardins da Fazenda Engenho d’Água adquirido pelo município e mantido fechado a maior parte do tempo. Exceção feita ainda há pouco para sediar uma exposição no palacete sede da fazenda com vinte e duas gravuras, – litografias -, de Juan Miró ao custo de duzentos e cinquenta e quatro mil e quinhentos reais. Por inexigibilidade de licitação. Pois afinal, trata-se de “um gênio no engenho”.

Será preciso remover do gramado da praia as estátuas agora expostas que fazem também alegoria parecida a das escolas de samba. Ao devolvê-las para a firma que as aluga, Ilhabela economizará trezentos e cinquenta mil reais por ano.

Repetindo: trezentos e cinquenta mil reais. Que é o valor do aluguel anual dessas estátuas para ficarem plantadas em área pública do município feito showroom. Situação que coloca a administração pública de Ilhabela como mecenas na promoção do turismo estatuário por esse valor ter sido pago pelas autoridades municipais de duas gestões oponentes sob o pretexto de que essas estátuas são uma atração turística.

Atração turística que custa trezentos e cinquenta mil reais por ano aos cofres municipais; o valor já despendido superou com larga folga o do recém-criado fundo municipal de cultura.

O ministro federal do meio ambiente Ricardo Salles mencionou essa situação de desperdício de receita municipal quando visitou Ilhabela no dia 22 de março do ano passado:”há incorreta aplicação de recursos públicos em equipamentos questionáveis, como desapropriações e esculturas”. Mais: “Temos problemas para resolver agora. Começamos a assistir aqui desapropriação da Casa do Engenho, Casa da Princesa, estátua, praça e saneamento nada”. Essas críticas despertaram irascível antipatia no meio político da cidade e acabaram engendrando uma briga com o ministro, cujo resultado nada palatável a Ilhabela, foi uma multa ambiental de dois milhões e quinhentos mil reais por lançamento de esgoto.

Falando novamente sobre a Itália, não há registro que descendentes dos magistrais escultores renascentistas que embelezaram suas fontes, praças, parques e prédios com suas obras incansavelmente fotografadas recebam qualquer bonificação do governo. Podemos incansavelmente pesquisar no Google e não encontraremos registro de proprietário de estátua que ganhe dinheiro público a alugando para atulhar o espaço público.

A bem da verdade, não deve haver no planeta inteiro caso igual a esse de Ilhabela; tanto é que ele é citado no relatório do Tribunal de Contas do ano de 2018. Se a notícia espalha, o que não vai faltar é o assédio de empresa oferecendo estátua para a cidade alugar e aí a receita milionária dos royalties vai para o ralo.

Então, antes que isso aconteça, ao invés de escondermos essa quantidade enorme de estátuas de isopor e fibra de vidro, vamos é expô-las no lugar dessas que cobram e muito.

Além de estarmos praticando a sustentabilidade, estaremos economizando centenas de milhares de reais já que elas nada vão custar para ficarem à vista. Será um alívio para as escolas de samba e para a prefeitura não precisarem se preocupar com elas diante da revolta e dos protestos de moradores indignados no reclame aqui Ilhabela com tanto carro alegórico abandonado no meio da rua.
E como são figurativas igual as que serão devolvidos para a fábrica de Guarulhos, farão bela figura. Ou até melhor, pois que são todas muito coloridas e muito mais diversificadas que as de inox. Tem de tudo: negro, branco, amarelo, verde, azul, índio, pirata, anjo, bicho, bicha, muita mulher pelada de bunda e seios fartos…

Há de existir quem levante a objeção de que essa esdrúxula coleção multifacetada de seres seja frágil, sujeita a ser barbarizada pelas intempéries e pelos vândalos. Podemos retrucar que, sim, – isso fará parte.

Ela será a “arte povera ilhabelense” e essa afirmação novamente nos transporta ao berço da arte renascentista. Arte Povera, a arte que fez nome e escola partindo da Itália na década de sessenta do século passado mundo afora, significa justamente arte pobre, arte perecível. No seu depauperamento, na sua finitude reside a sua grandeza e a sua beleza. Numa época de tamanha brutalidade como ora tristemente é a nossa, nada mais apropriado que a visão enternecedora da fragilidade.

Pois então, sem dúvida, essa será uma poderosa atração turística, um exuberante Jardim das Delícias Insular que, de tamanha surrealidade, fará apropriada companhia para as vinte e duas litografias do “gênio no engenho”.

Uma assim tão estupenda atração turística haverá de embasbacar não somente os italianos, espanhóis e demais estrangeiros que nos visitam, mas a população inteira de Ilhabela.

E é claro, haverá de ensejar a criação de novos e muito criativos slogans publicitários feito “Ilhabela, a ilha das mil maravilhas entre elas a arte povera”, “Ilhabela, capital do carnaval”, “Ilhabela, a ilha surreal” ou “Ilhabela, vida carnavalesca”.

Agora, falando sério e ao pronunciar essa frase alto e cantante acionar no fundo da memória um toca discos tocando a canção de Chico Buarque que o tempo tornou atual e profética: “… e você que está me ouvindo/ quer saber o que está havendo/ com as flores do meu quintal/ o amor-perfeito, traindo/ a sempre-viva, morrendo/ e a rosa, cheirando mal…”

O mulato inzoneiro, a mãe preta no cerrado, o rei congo no congado, a morena sestrosa de olhar indiscreto, a terra do nosso senhor não mais pintam retratos; são simplesmente palavras esvaziadas de sentido. E se bem antes era uma flagrante redundância o verso “esse coqueiro que dá coco” dessa ufanista aquarela da nacionalidade, é desta vez o país inteiro uma piada e de péssimo gosto.

Falando sério, dia 11 de março, quarta-feira, às 18h30min vai acontecer no auditório da prefeitura de Ilhabela, uma oficina para a elaboração do primeiro edital de cultura da cidade. Esse edital vai normatizar o uso do recém-criado fundo municipal da cultura, que foi uma conquista do Fórum da Cultura. Cujos dois encontros foram tema da coluna, “a vitória do Fórum da Cultura”  e “a mais do que nunca urgente: arte agora”.

Esse fundo que existe em todas as cidades que prezam a profissionalização e a democratização da cultura, será de quinhentos mil reais. Valor que será distribuído através de concursos lançados por edital. E os proponentes vencedores serão escolhidos por comissões de seleção isentas e com domínio pleno das suas áreas de julgamento. O que quer dizer que, esse dinheiro público, terá como destinatária, ações culturais escolhidas por meritocracia, assim interditando o favorecimento que gera desperdício e boa parte das vezes financia projetos medíocres.

Quinhentos mil reais é uma fração ridícula da verba da cultura de Ilhabela que, a despeito de reiteradas advertências do Tribunal de Contas, escolhe bancar projetos megalômanos, milionários, se valendo da inexigibilidade de licitação. E deixa à míngua os artistas da ilha e mesmo os de fora que se aventuram por aqui. Os músicos locais viraram meros figurantes das celebridades televisivas da hora regiamente bem pagas. É emblemática a situação dos “caiçaras do ritmo”, tão talentosos, com um repertório notável, deixados de escanteio a ponto de terem seu valor devidamente reconhecido apenas por gente estrangeira, por um cineasta argentino que, feito Wim Wenders os enxergou como foram enxergados os virtuosos músicos idosos do Buena Vista Social Club.

Os artistas de rua sofrem pesado preconceito. Os artesãos são mal vistos pela fiscalização correndo o risco de levarem até bordoada e quando recebem alguma infraestrutura, é aquela dos chiqueirinhos. Artistas plásticos e fotógrafos se sujeitam a expor nas instalações a isso destinas sem retaguarda que preste; não têm direito ao vernissage, divulgação profissional, convite impresso, catálogo, serviço de monitoria, chegando ao paroxismo de nem segurança adequada terem os espaços expositivos. Atores, atrizes, dançarinos e dançarinas, coreógrafos, sonoplastas, iluminadores, diretores de teatro têm para si esse monumento da incompetência, da absurda malversação do dinheiro público que vem a ser o teatro e o centro de convenções em ruínas, logo no engenho d’água, vizinho do famoso inquilino “o gênio no engenho”. As “feiras literárias” ilhabelenses são feitas para vender livro encalhado.

Não é só o Brasil que é construtor de ruínas na visão lúcida e doída de Eliane Brum em seu livro “Brasil construtor de ruínas”. Ilhabela também constrói as suas as espalhando pela cidade inteira e esse esforço destrutivo, por justiça não pode ser imputado a uma ou outra gestão, mas a várias, de diferentes matizes, sempre se vendendo através de slogans festivos e mirabolantes. Para comprovar, é suficiente andar devagar, de preferência a pé, por suas ruas cheias de buracos e lixo, por suas praças e jardins indigentes, por suas praias e suas cachoeiras poluídas por falta de saneamento, por suas áreas de risco e de invasão repletas de frágeis residências quase desabando, detendo-se para olhar os prédios públicos mal construídos, as escolas deixadas às traças, os postos de saúde disfuncionais sem a humanidade de atenderem emergencialmente munícipes sofrendo dores lancinantes, os imóveis desapropriados e logo relegados ao abandono e sem qualquer serventia, o interminável desfile de uma frota reluzente de veículos oficiais.

Gasta-se fortuna em concurso de miss, show de jazz, de bossa nova, de folk & blues, de sertanejo universitário, de pagode, música gospel, música clássica, – uma miríade de eventos que poderia se autofinanciar por patrocínio privado e governamental de nível estadual e federal -, exposição de estátua de gesso réplica de Michelangelo, tranqueirada do Leonardo da Vinci, litografia do “gênio do engenho” enquanto as oficinas culturais funcionam na banguela, com falta de material e baixa remuneração dos professores.

A correta, a justificada e a eficiente aplicação desses quinhentos mil reais pode marcar um ponto de inflexão a partir do qual a cultura na ilha seja tratada com o respeito que merece, iniciando um movimento que a qualifique num patamar de excelência e faça com que ela se capilarize – palavra essa fora do dicionário mas abundante nos disputados por enquanto sobreviventes editais do Programa de Ação Cultural patrocinados pelo governo do estado de São Paulo -, se espalhando pela cidade toda oxigenando mentes e cativando corações.

Então, é isso. Quem é artista, artesão, produtor, escritor, jornalista, fotógrafo; quem é consumidor de cultura; até quem é enxerido; quem quer morar numa cidade que brilhe como Paraty brilha no mundo inteiro com a Festa Literária Internacional de Paraty; todo esse montão de gente precisa lotar o auditório da prefeitura no dia 11 de março como ficou ele lotado nas audiências da SABESP. Porque cultura é assunto tão sério quanto saneamento. Fosse Ilhabela um município minimamente culto e o grave problema da falta de saneamento básico estaria resolvido há muito, muito tempo.

A foto em foco nasceu como um espaço virtual para dar destaque à fotografia num portal de notícias sem rabo preso, sucessor de um jornal impresso que durou quase três décadas e se chamava “Imprensa Livre”.

Fica pois estupidamente entediante tanta escrita aqui ainda mais numa época em as pessoas se comunicam telegraficamente escrevendo kkkkkkkkkkkk ou se valendo de memes fofinhos como carinhas sorrindo, mostrando a língua, chorando ou mãozinhas fazendo positivo ( será que já as têm fazendo arminha? ).

Ler tanto texto vai afugentar a meia dúzia de leitores da coluna.

Por isso, na sequência, o que verdadeiramente conta: foto e mais foto colorida.

Por uma fração decimal a Unidos do Garrafão não repetiu o primeiro lugar de 2019. As fotos acima registram a comemoração dos seus trinta e cinco anos de fundação, no dia 14 de fevereiro, quando seus participantes deram um show nota mil tocando e sambando com alegria contagiante.

E tão empolgante quanto essa festa de aniversário foi o tradicional banho da Doroteia. Apesar de todo esforço da fiscalização municipal para discipliná-lo, o obrigando a circular emparedado por arquibancadas sustentavelmente decoradas e cercados de alumínio no objetivo de domesticá-lo para o enquadrar como mais uma das maravilhas da ilha, ele continua a transpirar autêntica felicidade.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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