foto em foco: dia do ovo

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ovo
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dia do ovo

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Num dos ápices da pandemia, – porque podem acontecer novas ondas além dessa segunda de agora -, com o sinistro placar de mortes ultrapassando com folga os três milhares, um hipócrita sonho de normalidade insiste em se gritar presente mesmo na ausência dolorosa de tantos subitamente privados de estarem vivos entre nós muito antes da derradeira hora por causa da absoluta incúria daqueles a quem competia protegê-los.

E assim prefeitos e governadores no auge do descalabro sanitário insistem e exigem que as escolas sejam abertas ainda que seus funcionários e professores não tenham sido vacinados.

E assim prefeitos, empresários e comerciantes exigem o imediato abrandamento das medidas de fechamento dos comércios e dos pontos turísticos como praias e cachoeiras sob a egoísta alegação de que em seus municípios a taxa de ocupação hospitalar não tenha ultrapassado o pico ainda que nos municípios vizinhos ela já tenha estourado faz tempo a ponto de negar atendimento aos que com urgência, dele necessitem. Numa tenebrosa corrida cujo pódio premia os vencedores do alastramento da doença, esses prefeitos irresponsáveis se esmeram em jogar festivamente no gordo balaio dos serviços essenciais todas as atividades econômicas, a começar pelas escancaradamente secundárias.

E assim grassa impune a retórica falaciosa do “temos de trabalhar” que se sobrepõe à defesa da vida, sendo evidente ser ela uma acintosa mentira cuspida em nível federal, estadual e municipal semeando maldosamente o preconceito de que aqueles que se cuidam e dos outros também cuidam são vagabundos, enquanto são virtuosos os que desobedecem as recomendações fundamentadas pela ciência e pela boa governança ao custo da mortandade descontrolada que fez do Brasil campeão de goleada, muito além de qualquer inglório 7X1, no pavoroso placar da matança planetária.

E assim o ministro do Superior Tribunal Federal indicado ao cargo pelo presidente, num dos momentos mais tenebrosos da pandemia, libera a realização de missas e cultos por todo o país, transformando os templos em lugar não da pregação do respeito à vida e amor ao próximo, mas sim de invocação da morte.

E assim o governo federal lança esmola miserável aos desvalidos quando eles há muito já vinham se afogando ainda que para seus cúmplices e apadrinhados franqueie acesso descomplicado aos cofres púbicos. Em Ilhabela, felizmente, a prefeitura fez lei e a Câmara aprovou: quinhentos reais de auxílio para todos os moradores cadastrados no bolsa família. Mas esse socorro tem valor e alcance bastante inferior ao implementado na administração passada e por conta disso, mudou o coro dos descontes que agora bradam “volta Gracinha”.

E assim governo federal, governadores e prefeitos gastam sua energia em agredir os jornalistas que desmascaram a notória mediocridade de suas ações enquanto, infatigáveis, na segurança de seus gabinetes luxuosos e confortáveis, elucubram medidas publicitárias pra inglês ver.

E assim as pessoas continuam a se banhar de sol e mar como se desfrutassem dum festivo feriado para comer ovo de Páscoa, ainda que ao seu redor o clima fosse de desastre.

E assim pelas ruas das cidades brasileiras pessoas continuam a andar e a se aglomerar desmascaradas ainda que estejam muito bem mascaradas e empoderadas como operosas serviçais da morte a auxiliando a matar em regime industrial seus familiares, seus amigos e quem delas se aproxime para inalar seus perdigotos depravados pelo vírus.

E assim esta semana em todas as cidades que afundam no abismo escuro e gélido feito Titanic enquanto a orquestra ainda toca, filas se formavam para comprar ovo de chocolate.

Pois que o sentido da Páscoa mercantilizou-se como tudo de sagrado nesse mundo se abjeta e nos canais das TVs se assiste a celebração dessa bizarra comilança de chocolate em forma de ovo, com a saltitante figura patética dum coelho encenando uma dança grotesca.

 

O sentido original da Páscoa é o da morte e o da ressurreição; não o do ovo de chocolate incansavelmente propagandeado.

Mortos estão sendo brasileiros e brasileiras em todos os lugares do país, não existindo mais local seguro para se esconder e se proteger da doença que feito peste medieval se abate rancorosa e voraz sobre a população desamparada.

Desamparada pelo governo federal; desamparada pelos governos estaduais e pelos municipais cujos mandatários seguem fervorosos a pregação terraplanista desse presidente sociopata eleito por aqueles que escolheram a intolerância, a ignorância e o ódio como nortes em suas vidas.

Que messias seja parte de seu nome de batismo é uma ironia trágica que a história prega como pilhéria infame.

Os milhares que morreram e morrerão jamais em Páscoa alguma irão ressuscitar e com esse número de mortes crescendo desmesuradamente, cientistas vaticinam o colapso funerário como sequência do hospitalar que já acontece.

O povo brasileiro que vem sendo desde 2018 diuturnamente torturado pelo autoritarismo, pelo mau-caratismo, pela bestialidade dessa classe de dirigentes estúpidos e maldosos e a sua claque de lunáticos desalmados, precisa renascer; precisa fazer valer a sua força e a sua vontade de superar essa adversidade que é muito maior e pior que a da própria pandemia do coronavírus: a adversidade de ser governado por essa escória que em tempo recorde transformou o Brasil em pária entre as nações; tornou-o um criadouro descontrolado de variantes ainda mais letais e contagiosas do coronavírus com potencial de infectarem o mundo e por isso há quem já levante a bandeira da intervenção internacional no país para evitar prejuízo maior à humanidade.

A mensagem principal da Páscoa é justamente a do renascimento e este renascimento pode ter a coloração da redenção. Existe também um sentido mais antigo que remonta ao livro do Êxodo e nele a significação é a de libertação da escravidão.

Nesse momento estamos escravizados não à pandemia, mas a um governo que por suas atrocidades reiteradas há muito se deslegitimou a ponto de poder ser criminalizado. Um governo presidido por um mentiroso compulsivo cujo mantra é, paradoxalmente, “a verdade vos libertará”.

A grande lição e esperança que a Páscoa nos traz, não é a dessa lambança de comer ovo de chocolate, mas a de fazermos reviver soberana a nossa vontade e o nosso direito de nos libertarmos da tirania da estupidez e da maldade sob a inspiração dos ensinamentos do verdadeiro Messias, para finalmente darmos início à reconstrução de tudo o que foi malignamente destroçado ao mesmo tempo em que pranteamos as milhares de vidas assassinadas pelo pouco caso que autoridades dementes desumanamente lhes atribuíram.

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Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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