Turista de Campinas morre em São Sebastião e a família doa órgãos

13 pessoas serão beneficiadas; transplantes já começaram

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Rita de Cássia em sua última viagem com a Família (Foto: Álbum de Família)

A turista campineira Rita de Cassia Aparecida Barboza, de 54 anos, formada em pedagogia, teve morte cerebral confirmada no início da tarde de quinta (2/12), depois de sofrer um AVC (Acidente Vascular Cerebral). A família decidiu pela doação de múltiplos órgãos, que beneficiará 13 pessoas.

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Ela estava internada no Hospital de Clínicas de São Sebastião desde a manhã do dia 31 de dezembro passado, após passar mal na casa de veraneio.

“Essa viagem foi planejada [pela mãe] desde o início do ano, para a família toda passar o Natal e o Ano Novo junta aqui em Toque Toque”, conta a filha Carolinne Barboza Rodrigues do Nascimento. “Quase que eu não consegui vir, mas deu certo e pude estar ao lado dela e ajudar no socorro, quando detectamos que ela não estava bem; deixar meu emocional de lado e ser racional quando percebemos que ela estava sofrendo um AVC”.

Sintomas

Rita queria passar o final de ano com familiares

Carolinne explicou que a mãe havia acordado por volta das 6h no dia 31/12, disposta a ir para a praia antes que ficasse lotada. Mas reclamou de dor de cabeça e seu marido foi buscar um remédio enquanto ela ia ao banheiro vomitar. Ao regressar com o remédio, o homem notou que a esposa não estava bem e solicitou ajuda da filha.

“Pedimos que ela desse um sorriso e apenas uma parte dos lábios se moveu. Pedi que apertasse meu dedo com cada uma das mãos e outros procedimentos que aprendemos para detectar um AVC. Ela já estava esquisita, sem forças de um lado. Fomos para o hospital”.

Rita deu entrada com quadro de hematoma intra-parenquimatoso frontal, que é a ocorrência de um sangramento e a formação de um coágulo dentro do cérebro, que provocam dor de cabeça súbita, vômitos e alteração da consciência seguidos de déficits neurológicos progressivos (dificuldade de fala e movimentos).

Não foi possível fazer a intervenção cirúrgica. Rita foi entubada e passou a respirar por aparelhos; a morte encefálica aconteceu no primeiro dia do ano, às 11h30, sendo confirmada por exames em 24h.

A filha Carolinne disse que a mãe sempre manifestara a vontade de ser doadora de órgãos e a família acatou seu desejo. “Eu agradeço muito por saber que 13 pessoas vão sobreviver graças à ela. Deus tirou minha mãe para dar uma mãe para quem precisa mais do que eu”, disse emocionada.

“Minha mãe foi uma mulher de muita garra, muito amorosa, sempre ajudou muitas pessoas, de extrema bondade, valores, exemplo para a família e meu tudo”, lembrou a filha. “Minha mãe era o braço direito da minha avó, desde que meu avô partiu. Ela ajudava em tudo, com remédios, no banco, troca de pilha do aparelho auditivo”.

A última foto de Rita foi abraçada a uma boia enorme. “Estava muito feliz com a compra que nem cabia no carro”.

A família está abalada, todos haviam dado um jeito e indo a Toque Toque. “Ela organizou a viagem para se despedir”.

Retirada dos órgãos

Equipe em procedimento apra a retirada dos órgão (Foto: Divulgação)

O médico Elcio Hideo Sato, diretor do Banco de Olhos da Escola Paulista de Medicina, na capital paulista, explica que a confirmação da morte encefálica é realizada sempre antes do pedido de autorização da doação pela família. Há ainda uma triagem feita através de exames de sangue e causa da morte, entre outros. A fila de espera por uma córnea no Estado de São Paulo é de aproximadamente dois meses.

“Doação de órgãos fala sobre solidariedade humana. Nesse momento de extrema dor, podemos ajudar muitas pessoas. E como no caso do Gugu (apresentador Augusto Liberato, que morreu ao cair do sótão de sua casa e bater a cabeça), ninguém planeja morrer amanhã, mas, ao comentar que é favorável à doação, a família fica muito tranquila sobre o assunto”, ponderou.

Sato lembrou, ainda, que todas as religiões são extremamente favoráveis à doação, com raras exceções.

Informações e dúvidas podem ser esclarecidas diretamente no Banco de Olhos do Hospital São Paulo, pelo telefone (11 5572 3345). “Nós somos responsáveis por toda área da Baixada Santista e Litoral Norte”, explicou ele, cuja equipe foi responsável pela retirada das córneas da doadora.

Equipe responsável pela extração e retirada dos órgãos

O fígado foi retirado pela equipe do médico João Paulo e já seguiu para o Centro de Transplantes do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicinada USP (Universidade de São Paulo), pioneiro na América Latina. Lá, o receptor já estava preparado, no Centro Cirúrgico, para receber o órgão. “Tudo é cronometrado, quanto mais rápido o transplante, mais saudável o órgão estará”, informou.

Os rins também foram retirados e seguiram para o Hospital do Rim, em São Paulo.

“Espero que com casos assim, possam aumentar a quantidade de pessoas que sejam doadoras de órgãos”, concluiu Carolinne.

“Precisamos falar sobre doação de órgãos no almoço de família, aos domingos. Saber quais familiares querem ser doadores. Vivemos em um mundo egoísta, doar passa a ser uma oportunidade de ter nosso familiar vivo em outras pessoas”, explica Horácio Augusto de Souza Neto, enfermeiro plantonista do Banco de Olhos do Hospital São Paulo.

O último caso de doação de órgãos no Litoral Norte foi em outubro de 2019. (Link: https://novaimprensa.com/2019/10/doze-pessoas-recebem-orgaos-de-vitima-de-avc-em-caraguatatuba.html).

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