Por Márcio Pannunzio

Janio de Freitas, com sua prosa requintada nos faz lembrar que o carnaval dos desfiles da TV como vemos agora é fruto da relação incestuosa entre a contravenção e a autoridade pública. Nas suas palavras, o Carnaval é “a grande festa da hipocrisia nacional”.

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Felizmente, isso não se pode dizer do Carnaval em Ilhabela. Ele tem muita da naturalidade, da alegria sem afetação, do real prazer de se apropriar da rua e confraternizar com gente de todas as idades, gêneros, cores, credos e bolsos. E o seu ponto alto é o Banho da Doroteia. Nele se misturam pessoas que normalmente não se encontrariam e a beleza desse encontro reside na sua pluralidade. Ela nos ensina a respeitar o outro, por mais diferente que ele seja. Ela estimula a convivência entre os desiguais de maneira fraterna. Por esse motivo uma das foto em foco mais destacadas é a do Banho da Doroteia. Pois é esse o tema da presente coluna.

Porém, antes de conferir as fotos dessa festa, vamos fazer uma pequena pausa.

Quem acompanha a coluna pode estranhar o uso da primeira pessoa em tom confessional. Ia deixar passar batido, mas vamos lá, depois de tantos anos marcando presença neste espaço, há de haver um lugarzinho aqui para um desabafo.

Fiz essas fotos guerreando contra a férrea determinação dos fiscais da prefeitura de interditarem meu trabalho a todo instante apesar de eu lhes jurar de pés juntos ser sim da imprensa, colunista do Nova Imprensa, fotógrafo parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena e colaborador exclusivo do banco de imagens iStock by Getty Images. Faz tempo desisti de pedir credenciamento de imprensa para cobertura de eventos locais pela falta de interlocução adequada. Tentar, tentei bastante mas parei diante de informações desencontradas. Seria irônico se alguma das fotos que consegui fazer apesar da animosidade dos fiscais e subi na Foto Arena saísse em destaque nalgum grande jornal ou revista ou portal fazendo ainda mais propaganda de Ilhabela – essa sem custo algum para o erário público do que aquela usualmente feita com considerável gasto dele.

O trabalho higienista da prefeitura se esmerou em remover do palco da ação os fotojornalistas que não compunham o batalhão dos fotógrafos e cinegrafistas oficiais; esses, caminhando desembaraçados, bem poderiam formar um novo bloco para sambarem no meio e nos cantos todos da avenida.

Pode parecer engraçado mas não é. O esforço higienista foi além. Poluindo o espaço público com cercadinhos de metal, arquibancadas para autoridades, arquibancadas para VIPs, arquibancadas para idosos, arquibancadas para pagantes para criar um labirinto como aquele por onde corre o gado em direção ao abate guarnecido por uma legião de fiscais municipais para com mão pesada disciplinar a circulação das pessoas, suscitou então a pergunta: aonde se quer chegar?

A afobação de pretender transformar o tradicional Banho da Doroteia em uma outra das “mil maravilhas” de Ilhabela pode dele subtrair seu maior valor, a sua espontaneidade e esse fato seria tão nefasto quanto o são as praias impróprias do arquipélago.

A Foto em Foco passada, – parabéns, Unidos do Garrafão -, tinha como subtítulo a frase “ouvir e ver a Unidos do Garrafão na avenida é experiência inesquecível”. Com isso concordaram os jurados e a proclamaram a campeã do Carnaval de Ilhabela 2019.

Gostaria e muito de ter fotografado o seu desfile de encerramento. Não pouparia forças para que minhas fotos eternizassem e glorificassem essa vitória afora das fronteiras geográficas do Litoral Norte. Porém, fragilizado por estar convalescendo de uma gripe fora de estação e antevendo os embates que certamente travaria com os fiscais que muito importunaram meu trabalho à tarde, não voltei, não fotografei. Que me perdoe a escola a quem digo novamente: parabéns, Unidos do Garrafão.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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