Desdobramentos periciais e a conclusão do relatório da Polícia Civil revelaram uma nova dinâmica no homicídio da cozinheira Berenice Ramos, ocorrido em Ubatuba. As análises técnicas e o laudo de necropsia revelaram contradições nos depoimentos dos acusados e reforçam as hipóteses da polícia sobre os responsáveis.
A principal revelação pericial está na análise da Nissan Frontier preta pertencente à comerciante Eliane Alves dos Santos, patroa da vítima e acusada de ser mandante da morte. Embora o investigado Magno, sobrinho da suspeita, tenha afirmado em depoimento que ela atirou em Berenice do banco traseiro, a perícia constatou que a trajetória dos projéteis foram de dentro para fora na porta traseira direita.
Além disso, a concentração massiva de sangue no banco dianteiro do passageiro indicam que o atirador estava no banco da frente, ao lado da vítima. A análise balística apontou que um único disparo de pistola 9 mm, ao transfixar o cotovelo esquerdo erguido em gesto de defesa, atingiu o peito de Berenice, perfurando o pulmão e a artéria aorta.
Farda da polícia
Outro ponto esclarecido pelo laudo definitivo refere-se ao segundo carro, uma Renault Duster Oroch de Irimar Castilho, companheiro de Eliane. Diferente de hipóteses iniciais, o exame de luminol deu negativo para sangue na Oroch.
O veículo foi utilizado em uma segunda viagem até Paraty e Angra dos Reis entre 4 e 5 de julho, quando o corpo já não apresentava sangramento ativo, enquanto a Frontier passava por reparos em Jacareí. Para cobrir as perfurações de bala na oficina, Eliane e Irimar apresentaram-se fardados como policiais para intimidar os funcionários e evitar questionamentos.

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Investigação
Segundo a polícia, a sequência dos fatos teve início no dia 29 de junho, quando ocorreu a demissão da vítima. Berenice trabalhava há cinco meses como cozinheira no complexo comercial mantido por Eliane, no Sertão do Ubatumirim.
Após ser acusada de desvio de mercadorias, houve uma forte briga no local. Embora o advogado da trabalhadora estimasse a rescisão contratual em mais de R$ 4 mil, Irimar enviou uma mensagem de áudio orientando Berenice a aceitar apenas R$ 900 e buscar seus direitos na Justiça posteriormente.
No dia seguinte, 30 de junho, segundo o inquérito, deu-se a execução e o desaparecimento. A última visualização do WhatsApp de Berenice foi registrada às 15h23, com uso de aplicativos no aparelho detectado até 16h05.
Testemunhas e relatos apontam que a vítima sofreu agressões físicas no interior do comércio. Colocada no banco do passageiro da Frontier, Berenice foi baleada na cabine. Câmeras de monitoramento flagraram a caminhonete na BR-101 às 18h58, momento em que o veículo entrou na RJ-155 (Serra d’Água) e permaneceu em um hiato cego sem registros por 2 horas e 6 minutos.
Em depoimento prestado em 8 de julho de 2026, Eliane tentou criar um álibi alegando ter pago R$ 2 mil em dinheiro vivo e deixado a ex-funcionária no trevo de Ubatumirim.
Entre os dias 1º e 3 de julho, desdobraram-se as primeiras buscas e a apreensão de provas. O sinal do GPS do celular de Berenice foi interrompido definitivamente às 11h do dia 1º de julho.
Durante vistoria na casa alugada por Berenice, seu filho encontrou documentos médicos e jurídicos essenciais escondidos sob panos de limpeza. Diante da falta de colaboração inicial dos suspeitos, a Polícia Civil realizou a apreensão do aparelho DVR com as gravações do circuito interno do estabelecimento.
No período de 2 a 8 de julho, ocorreram as ações de ocultação e fraude processual. Eliane e Irimar levaram a Nissan Frontier até uma oficina em Jacareí usando fardas policiais para reparar os buracos de tiro na lataria.
Paralelamente, entre os dias 4 e 5 de julho, o casal utilizou a Duster Oroch para retornar ao ponto de ocultação na Serra d’Água. Durante as investigações, Magno tentou enganar os policiais entregando um celular cadastrado em nome de terceiros no dia 7 de julho, mas a quebra de sigilo do seu chip original comprovou sua presença ao lado de Eliane em todo o trajeto. Um veículo Chevrolet Ônix vermelho e seus ocupantes chegaram a ser investigados, mas foram totalmente descartados.
A investigação culminou na conclusão do inquérito policial após a localização do cadáver. As equipes do Corpo de Bombeiros resgataram o corpo de Berenice preso à vegetação em um penhasco de difícil acesso na Serra d’Água, localização mapeada a partir do cruzamento de dados das antenas de telefonia celular (ERBs) de Magno e Eliane.
O laudo pericial cadavérico confirmou quatro perfurações provocadas por disparos de entrada e saída no tórax e no cotovelo, além de crostas de terra no corpo. Diante do conjunto probatório, Magno e Eliane foram indiciados por homicídio qualificado e ocultação de cadáver, enquanto Irimar responderá por fraude processual e ocultação de cadáver.

