Ilhabela recebe visitantes dos EUA para debater importância do afroturismo

No Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Pessoas Escravizadas, celebrado em 25 de março, Ilhabela recebe um encontro que articula memória, economia e futuro. O evento acontece no Esporte Clube Ilhabela, das 15h às 19h, para debater a importância do afroturismo.

Com uma história intrinsecamente ligada ao período da escravidão no Brasil, Ilhabela serviu como um dos maiores pontos para desembarque clandestino de africanos escravizados após a proibição do tráfico negreiro.

Vestígios e narrativas desse período sombrio marcam a identidade e a geografia da ilha, como um navio negreiro naufragado que ainda pode ser visto em maré baixa na Praia de Castelhanos. Outro caso é o nome da Praia da Fome, que remete à história dos homens que eram alimentados em uma “fazenda de engorda”, antes de serem levados para serem vendidos em outras regiões.

Afroturismo 

A programação do evento começa pela manhã, quando o território recebe uma experiência imersiva de turismo de base comunitária voltada a um grupo de aproximadamente 100 visitantes vindos de New Orleans, cidade da Louisiana localizada às margens do rio Mississippi, marcada pela tradição do jazz e pelas conexões históricas da diáspora afro-atlântica. A atividade terá duração aproximada de quatro horas e integra a jornada afrocentrada que o grupo realiza pelo Brasil.

A visita é organizada pelo Oxigênio Ilhabela em cooperação com a Diaspora.Black, plataforma brasileira de afroturismo dedicada a promover experiências de viagem conectadas à história, cultura e ancestralidade da diáspora africana. O grupo também vai visitar Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro entre os dias 16 e 25 de março.

O roteiro inclui experiências como o Memorial das Baianas e o Centro Histórico de Salvador, a Pequena África, no Rio de Janeiro, e caminhadas guiadas pelo centro histórico de São Paulo, conectando participantes a territórios de resistência, espiritualidade e criação cultural negra no Brasil. Ao chegar à ilha, o percurso encontra o mar, os saberes afro-caiçaras e narrativas ligadas à memória, ao quilombo e às tecnologias ancestrais de relação com a natureza.

No período da tarde acontece o Fórum de Afroturismo e Economia Criativa, realizado e mediado pelo Oxigênio Ilhabela com o apoio da Secretaria de Turismo. O encontro reúne referências nacionais no tema e é aberto a convidados, empreendedores e lideranças regionais.

Entre os participantes está Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, maior festival de cultura e empreendedorismo negro da América Latina, que traz a perspectiva da consolidação de mercado e do fortalecimento do afroempreendedorismo como política econômica.

Carlos Humberto, idealizador da Diaspora.Black e reconhecido pela Embratur por sua contribuição ao afroturismo no país, compartilha a experiência de estruturar o segmento como vetor de desenvolvimento e conexão internacional.

Kamila Camilo, empreendedora social e fundadora do Instituto Oyá, traz a perspectiva da justiça climática e a reflexão sobre como modelos de turismo mais conscientes podem contribuir para a regeneração ambiental, a valorização cultural e o desenvolvimento dos territórios.

O encontro também contará com a presença da deputada estadual Marina Helou, que participa do debate trazendo a perspectiva de políticas públicas e da construção de uma agenda que fortaleça o turismo regenerativo.

Completa o painel Benilda Brito, referência nacional em letramento racial e desenvolvimento territorial, com atuação em redes brasileiras e participação em agendas internacionais.

A pergunta que atravessa o encontro é direta: que tipo de turismo Ilhabela deseja fortalecer? Um modelo baseado apenas em fluxo e sazonalidade ou uma estratégia que distribui renda, fortalece comunidades, valoriza cultura viva e posiciona o território como referência em turismo de base comunitária?

Para Aziz Camali, cofundador do Oxigênio Ilhabela, a escolha da data reforça o significado do encontro. “A coincidência entre a chegada do grupo e o 25 de março carrega uma dimensão simbólica profunda. Se no passado o Atlântico foi rota de violência, hoje ele pode se tornar uma travessia contemporânea de reconexão, intercâmbio e construção de futuro. A proposta é potencializar uma agenda que nasce da nossa identidade local e da consciência histórica capaz de orientar modelos econômicos mais justos, que priorizam a comunidade e estimulam um turismo regenerativo”.

Serviço
Painel Oxigênio Ilhabela
Data: 25 de março
Horário: 15h às 19h
Local: Esporte Clube Ilhabela – Ilhabela (SP)
Inscrições: oxigenioilhabela.com.br
Artes para download referentes ao Fórum de Afroturismo e Economia Criativa
Valores: R$ 80 (inteira) e R$ 20 (ingresso social – quantidade limitada)

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