Com mais de dois séculos de história, começa nesta sexta-feira (15) a tradicional Congada de São Benedito, um dos momentos mais tradicionais e simbólicos da cultura de Ilhabela. A manifestação acontece na Vila e reúne música, dança, teatralização e religiosidade popular, com raízes profundas na cultura afro-brasileira, sincretizada com o cristianismo.
Com forte influência africana bantu, a Congada foi trazida a Ilhabela por Roldão Antônio de Jesus, homem escravizado que foi sequestrado, desembarcou em Castelhanos e foi vendido para a fazenda Morro do Espinho, no bairro da Cocaia, por volta de 1785.

Ele era tio-avô da famosa Dona Ana Esperança, umas das primeiras líderes da culinária da Congada, a Ucharia. Hoje é sua família que ainda cuida da tradição da cozinha congueira. Devoto de São Benedito, único Santo negro da igreja católica, Roldão difundiu sua crença e, desde então, a tradição vem sendo passada de geração em geração.
De acordo com os estudos realizados pela Associação Cultural dos Congueiros de Ilhabela, que organiza a festa, essa é considerada a maior manifestação cultural da cidade.
A batalha
O enredo da Congada envolve um drama simbólico: o conflito entre cristãos (vestidos de azul) e representados pelo Rei do Congo, e mouros, considerados pagãos (de vermelho e rosa), representados pelo Embaixador de Luanda.
O Rei do Congo havia se apaixonado por uma mulher do povo e com ela teve um filho, mas por temer consequências deste amor em seu reinado, mandou a amante embora ainda grávida. Ela foi para Luanda e teve o bebê, que se tornou, justamente o embaixador de vermelho que volta para aterrorizar o reino do pai desconhecido.
Em busca de seus direitos, acontecem as batalhas, mas a misericórdia de São Benedito é maior, sela o destino dos reinos e da família. Quando o exército azul consegue derrotar a tropa inimiga, o Rei acaba concedendo o perdão em nome da bondade de São Benedito. O embaixador de Luanda se emociona com o perdão concedido pelos vencedores e se torna mais um devoto fiel do santo, assim como seu povo.

Os rituais ocorrem ao som de atabaques e marimbas de madeira, em três momentos principais: o “Roldão” ou “Macambá”, que marca a chegada dos mouros; o “Alvoroço” ou “Baile Grande”, representando o confronto entre os grupos; e o baile de “São Mateus”, quando ocorre a reconciliação entre pai e filho e todos passam a celebrar juntos São Benedito.
Outra curiosidade é que a festa segue o calendário da natureza caiçara. Até poucos anos, o baile acontecia no “claro” de maio, período de lua cheia, quando a água clara do mar dificulta a pescaria e, assim, toda a comunidade se reúne em terra para os festejos.
Levantamento do mastro
O ponto inicial da Congada é o levantamento do mastro. A cerimônia começa com uma procissão pelas ruas da Vila ao som da marimba, atabaques, repicar dos sinos da Igreja Matriz e foguetório. Ao final da cerimônia, é servida a “concertada”, bebida típica à base de folhas de laranjeira e limoeiro, canela e cravo socados, rapadura e cachaça.
Ucharia
A culinária é parte essencial no ritual, afinal São Benedito também foi cozinheiro do mosteiro onde viveu e conhecido por seus pratos saborosos. Em Ilhabela ainda é comum encontrar a imagem do milagreiro dentro das cozinhas, para garantir a fartura. E quando o fogo se acende na cozinha da Congada, é sinal de abundância.
A Ucharia reúne centenas de pessoas para uma refeição coletiva. A comida é preparada pelas mãos das mulheres dos congueiros, com ingredientes doados pela comunidade. O alimento é preparado ainda nos tradicionais fogões “tacuruba”, montados manualmente sobre pedras grandes que assentam os enormes tachos e panelões.

A comida é servida a todos que quiserem participar, remetendo mais uma vez à bondade de São Benedito, que praticou muita caridade. O tradicional bolo coletivo fecha o banquete.
Semana da Cultura Caiçara
A programação de 2026 começa nesta quarta-feira (13), com a abertura oficial da Semana da Cultura Caiçara, no Centro Cultural da Vila.
Na sexta-feira (15), os ritos da Congada terão início às 17h, na Praça Prof. Alfredo Oliani, em frente à Igreja Matriz, com a procissão e o levantamento do mastro de São Benedito, seguidos pela distribuição de bolo e da Concertada ao público.
No sábado (16), os tradicionais bailes dos congos tomam conta das ruas da Vila ao longo do dia, junto ao almoço comunitário da Ucharia, às 12h. O encerramento, no domingo (17), contará com alvorada festiva, missa dos congueiros, mais uma tarde de Ucharia e a procissão de São Benedito com queima de fogos.
A Semana da Cultura Caiçara é uma realização da Prefeitura de Ilhabela, por meio da Secretaria de Cultura.

