Carro é couraça, armadura. Quem dentro dele trafega se isola do mundo numa ação de apartheid. Percorre os caminhos da cidade às cegas; não interage com o que vive nas suas margens. Importamos o modelo gringo de felicidade; só nos achamos melhores a bordo dos nossos bólidos emblemas reluzentes de um status diferenciado. Os pedestres e os espremidos nos ônibus são contabilizados como seres de extrato social inferior; são estigmatizados como “pobres”, “ralé”, “massa ignara”; todos aqueles que não podem habitar o paraíso do consumismo supérfluo, do etiquetar-se grife cara, enfim, a maior parte da população.

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O sonho da mobilidade na cidade conflagrada é também o sonho de estar por cima dos demais, às vezes, até mesmo os atropelando e matando. O seu preço é desumanizarmos-nos; não sermos irmãos de quem não se locomove encouraçado.

E as couraças estão cada vez maiores, abrutalhadas e ameaçadoras como vemos na televisão nos anúncios dos recém-lançados suvs, os utilitários esportivos. Uma invenção bizarra misturando duas categorias aparentemente inconciliáveis e sem serventia.

Utilitários? Para quê? Em suas caçambas avantajadas nada transportam; são tanques de uma guerra urbana encapsulando uma solitária madame ou um executivo mauricinho, os dois, sempre de óculos escuros por detrás de vidros completamente opacos. Esportivos? Como, se não passam dos 30Km/h nas vias de trânsito congestionado?

E eles almejam outros horizontes que não os urbanos. O mato, a praia, o lugar de ninguém, o lugar nenhum.

Numa propaganda fresquinha vemos o jovem endinheirado profissional bem-sucedido largar o escritório descolado, embarcar em seu vermelho sangue suv e rapidamente alcançar o topo da montanha fora da cidade para dela audaciosamente atirar-se no abismo e planar na companhia de seus iguais, entre eles, a mulherzinha de olhar insinuante.

Como ainda pode existir alguém que se encante com peça publicitária tão rastaquera?

Agora que o fim de ano se avizinha com o natal e seu mercantilismo de ocasião e o reveillon ressuscitando as sempre velhas promessas de mudança renovadas entra ano sai ano, nós que moramos no litoral sul maravilha vamos viver o apocalipse causado pela invasão de milhares e milhares desses carros brancos pretos prateados formando fila paquidérmica, buzinando em coro desafinado, resfolegando histéricos, enfumaçando e catingando o ar.

Quem sabe a ilha afunda de vez com tanto peso de lata inútil guiada por gente estúpida.

Refresco para o olhar, as fotos da coluna retratam ciclistas. Num ponto de vista fixo na BR 101. Tarde de sol. Dia mormacento. Não tem bicicleta de bacana passando. Quase todas são simplórias, sem câmbio, sem adereços. E não há preconceito. Homem anda em bicicleta cor de rosa; mulher em bicicleta de cano alto. E tem gente de tudo quanto é peso e cor. E é tudo gente que não vai perder as pregas para comprar carro de propaganda besta e achar que por isso vai ser mais gente que outra gente.

Gente essa que esqueceu faz tempo o que é tomar brisa na cara e sentir a paisagem passar respirando seu perfume e enxergando sua cor.

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Márcio Pannunzio
Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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