FOTO EM FOCO: Ponto a ponto

Um ônibus corta a noite entre Caraguá e São Sebastião. Pela janela, vou vendo os pontos de parada se sucedendo e, câmera na mão, vou registrando um a um. As fotos estão borradas. O foco, quando há, deixa mais nítidas somente áreas pequenas. A cor é saturada. A luz é fraca, apagada.

São fotos para causar perplexidade e para estimular a pergunta: isso é foto? Haveria quem retrucaria que o seu celular faria foto melhor; que seu filho de cinco anos fotografaria melhor.

Porém, pensar assim afasta o olhar de perceber o que essas imagens, tão distantes do mundo da propaganda, nos dizem. 

Em todas elas as pessoas estão presentes, mesmo naquelas que mostram lugares vazios, com a pintura descascada, sujos, pichados. A presença humana é que confere sentido a todos esses espaços, pontos de parada. É uma presença triste; na maior parte das vezes, solitária. Aguarda sonâmbula a chegada do ônibus que a levará de volta à casa. Vai entrar em outro espaço, cheio de luzes, ofuscando a vista; vai se sentar ao lado de outra pessoa ou, se o ônibus estiver cheio, ficar em pé, se encostando em outras pessoas.

Mas, apesar de todos juntos, seguirão todos separados, imersos numa alienação que não percebe, não reconhece o outro. Ninguém diz boa noite ou como vai, ninguém diz nada. 

Apesar de haver mais luz, é o clima lúgubre do ponto onde se espera que prevalece. Clima de sonho, beirando o pesadelo. É disso que essas fotos falam.

Por Márcio Pannunzio
*Os direitos autorais das fotos da coluna Foto em Foco pertencem a Márcio Pannunzio. Desrespeitar o direito do autor é crime. Havendo interesse em usar qualquer fotografia da coluna para fins jornalísticos, institucionais, didáticos ou publicitários, entre em contato para negociar o devido licenciamento de uso de imagem: marciopann@gmail.com

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Sobre Márcio Pannunzio

Márcio Pannunzio, que reside em Ilhabela desde 1989, é artista plástico, fotógrafo, ilustrador, cartunista e jornalista. Seu trabalho de artista gráfico correu mundo e conquistou doze prêmios internacionais, entre eles, na XYLON 12 – International Triennial Exhibition of Artistic Relief Printing ( Suíça ), na Biennale Internationale d’Estampe Contemporaine de Trois-Rivières, Première Édition ( Canadá ), no 3º Concurso Internacional de Minigrabado “Ciudad de Ourense” ( Espanha ), na BIMPE V – The Fifth International Biennial Miniature Print Exhibition ( Canadá ), na 1st International Small Engraving Salon Inter – Grabado 2005 ( Uruguai ). No Brasil foi premiado em trinta e nove ocasiões entre elas: no 10º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no 50º Salão Paranaense, na 10ª Mostra da Gravura Cidade de Curitiba, no 3º Salão Victor Meirelles, no 2º Salão SESC de Gravura, no 26º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, no 7º e no 3º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na VIII e na VII Bienal do Recôncavo, na II Bienal da Gravura, na 4ª e na 2ª Bienal de Gravura de Santo André, na 5ª e na 3ª Bienal Nacional de Gravura Olho Latino. Foi bolsista da Fundação Vitae em 2002 e figurou entre os vencedores dos editais ProAc de Artes Visuais de 2008, 2010 e 2011. Realizou trinta e uma individuais, cinco delas no exterior. Pratica a fotografia de rua e investe também no fotojornalismo. É colaborador exclusivo da Istockphoto da Getty Images e parceiro da agência de fotojornalismo Foto Arena. Como jornalista colaborou como articulista na primeira versão do Jornal da Ilha, na Folha da Cidade, na revista por dentro do Baepi. Assina a coluna de opinião foto em foco no Nova Imprensa desde 2016.

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