Para quem trafega na região do shopping center, do hotel ou do hospital regional em Caraguatatuba, é difícil imaginar que todo aquele solo já foi território britânico e alvo de vigilância internacional, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial.
A Fazenda dos Ingleses, oficialmente Fazenda São Sebastião, operou como uma engrenagem vital para o esforço de guerra do Reino Unido entre as décadas de 1930 e 1940. O empreendimento fornecia desde madeira para ferrovias europeias até frutas cítricas que abasteciam a mesa da família real.
Neste período, o cenário paradisíaco do Litoral Norte escondia perigos reais durante o maior conflito do século 20. Relatos históricos e documentos da época apontam que o canal entre São Sebastião e Ilhabela foi monitorado por espiões alemães infiltrados, que tinham a missão de informar o país sobre as atividades dos Aliados, dos quais a Inglaterra fazia parte, ao lado da França e dos Estados Unidos.
Siga o canal “Nova Imprensa” no WhatsApp e fique por dentro das notícias do Litoral Norte: https://whatsapp.com/channel/0029Vb3aWJl29759dfBaD40Y

O temido submarino nazista U-513, comandado por Friedrich Guggenberger, um dos oficiais de confiança de Adolf Hitler, chegou a operar nessas águas. A embarcação atacou e afundou cargueiros como o Elihu Benjamin Washburne e o navio Campos, este último resultando na morte de 52 pessoas.
Mesmo sob o risco constante de torpedeamentos no Atlântico Sul, a fazenda mantinha uma logística sofisticada para os padrões da época.
A propriedade contava com 120 quilômetros de ferrovias internas e um porto particular às margens do Rio Juqueriquerê. Por ali, eram escoadas milhões de unidades de bananas e toranjas da marca Tropigold, que ganharam fama no mercado londrino pelo suco abundante. Além da produção agrícola, a fazenda funcionava como uma madeireira estratégica, exportando insumos para a manutenção das linhas férreas militares no continente europeu.
O começo do fim na Fazenda dos Ingleses
O declínio desse império britânico em solo paulista começou logo após 1945. Com a economia do Reino Unido fragilizada pelo pós-guerra, a demanda pelos produtos brasileiros despencou.
Nas décadas seguintes, pragas agrícolas e dificuldades financeiras enfraqueceram o negócio, que recebeu o golpe final em 18 de março de 1967. A tempestade histórica que devastou Caraguatatuba causou deslizamentos que soterraram metade da fazenda, destruindo plantações e levando os proprietários a abandonarem a área definitivamente.

Atualmente, o legado da Fazenda dos Ingleses sobrevive em ruínas escondidas pela vegetação e pelo desenvolvimento urbano.
O vestígio mais emblemático é o Castelinho, antiga residência dos gestores britânicos situada no topo de um morro. No núcleo do Porto Novo, também restam partes do cais de 100 metros e casas de antigos trabalhadores.
Recentemente, movimentos culturais de Caraguatatuba intensificaram pedidos de tombamento histórico para evitar que os últimos traços dessa era de espionagem e glória econômica desapareçam por completo.

